sexta-feira, 24 de junho de 2016

Aqui se faz, aqui há graça

Aqui se faz, aqui se paga, não é? Sei. Veja Arão, por exemplo.

Poucos personagens da Bíblia me intrigam tanto. Enquanto seu irmão está no Sinai, recebendo as tábuas dos dez mandamentos, ele está lá embaixo fazendo uma escultura em ouro no formato de um bezerro para o povo adorar como se ele fosse seu deus, como se esse ídolo tosco e recém criado tivesse tirado o povo do Egito. E o povo não faz apenas isso, em adoração ao bezerro de ouro o povo "se levanta para folgar". Arão acaba por estimular uma orgia regada a vinho no meio do arraial israelita. 

O papel de Arão nesse episódio é inequívoco. "Feriu, pois, o Senhor ao povo, por ter feito o bezerro que Arão formara" (Êxodo 32:35). Quer dizer que caiu um raio na cabeça do irmão mais velho de Moisés? Não. 

Ele se safou dessa e não apenas isso, mas foi eleito sumo sacerdote na sequência.

Mais adiante ele e sua irmã, Miriã, se lançam a esporte favorito de muita gente: falar mal dos parentes. No caso, de Moisés e de sua esposa. É tanta fofoca que aquilo evoluiu para um verdadeiro motim, uma "sedição". Deus também fala por nós, diziam eles. Como resposta, Deus faz com que Miriã fique leprosa. Ei, como assim? E Arão?

Moisés intercede por sua irmã e aquela doença incurável é curada. Em Deuteronômio 9 há uma pista de porque Arão se safou também, falando especificamente do episódio do bezerro de ouro:"O Senhor se irou muito contra Arão para o destruir; mas também orei em favor de Arão" (verso 20).

Arão me ensina que não é legítimo alimentar expectativas de que a punição pelos erros (dos outros, mas também dos meus), seja tão automática e exemplar como se isso aqui fosse um filme americano. Arão também me ensina que a graça divina soa injusta muitas vezes. Arão me ensina que uma vida de retidão e devoção a Deus impacta as pessoas ao meu redor, já que foi em deferência à oração de Moisés que seu irmão não fez e pagou já aqui. E Arão me faz lembrar do poder que tem a oração intercessória.

Você quer abençoar seus filhos? Servir a Deus com integridade certamente é um investimento melhor do que qualquer poupança polpuda ou previdência privada. Esse investimento, aliás, pode impactar até mil gerações. 


sexta-feira, 17 de junho de 2016

Saia do barco

You call me out upon the waters, é como começa Oceans, canção lançada em 2013 pelos australianos do Hillsong United. Você me chama para sair do barco e andar sobre as águas, sobre o desconhecido, onde os pés podem vacilar.
Porque tudo começa numa crise. Trocar a previsibilidade do barco pela incerteza das águas? As razões para não dar esse passo são ótimas, são razoáveis, são confortáveis. Eu tento sufocar a voz que me chama para andar sobre as águas. Eu tento não ouvir, tento negar. Se eu não ouvi esse convite, então estou no barco ainda. Se eu não ouvi, estou onde Tu não estás e minha vida jamais vai ser diferente do que foi até aqui. Posso, no máximo, almejar repetir a melhor alegria que já tive. Sem nenhuma certeza de conseguir, mas se conseguir, bem, essa terá sido toda minha recompensa.
Crise.
And there I find you in the mystery, in oceans deep my faith will stand. Porque é se permitindo deixar que o Autor do chamado me reinvente, é permitindo que a crise se instale e que meus pés se movam por terreno desconhecido que eu O encontro. E sobre as águas profundas minha fé endireita sua espinha, se põe totalmente de pé e respira fundo. Nas águas profundas ela pode vicejar. Your grace abound in deepest waters. Tua graça, que alguém que já esteve lá chamou de maravilhosa, é mais abundante nas águas mais profundas. Se eu fico no rasinho tenho um pálido vislumbre dela. Se eu fico no raso da zona de conforto, se eu fico no raso das noções enlatadas sobre quem Tu és, se eu fico no raso das opiniões de outros, do contato frio, semanal contigo, se eu não avanço sobre as águas mais profundas... terei me conformado em ver muito de longe a terra prometida.
And I will call upon Your name/and keep my eyes above the waves/when oceans rise/my soul will rest in Your embrace/For I am Yours and You are mine. É que depois da crise não há a menor chance de eu querer retornar. Eu Te encontrei. Senti a doçura incomparável de pertencer a Ti. Mas o barco lá atrás tem seu clamor, eu sei. Eu sinto. Então preciso me lembrar constantemente para manter os olhos sobre as ondas, fixos nAquele que me chamou.
Your sovereign hand will be my guide. Tua soberana mão me guiará. Por onde? Talvez where feet may fail and fear surrounds me (para fora da zona de conforto, onde os pés vacilam e os medos me cercam), mas You’ve never failed and You won’t start now. Ah, não, não será agora que Aquele que jamais falhou falhará!
A entrega é um ato de coragem, não de fraqueza. Permitir que a crise se instale e deixar que ela cresça até assumir a forma inequívoca de um chamado inignorável para sair do barco e andar sobre águas escuras, águas profundas, no meio da noite... meu amigo, isso requer valentia. Que eu não tenho. Que Ele dá.
Spirit lead me where my trust is without borders. Espírito, me guie até o local onde minha confiança não conheça limites. Me leve ao local mais profundo. Sobre a fossa das Marianas, onde minha fé seja obrigada a malhar loucamente para adquirir músculos e se tornar maior bem maior do que eu. Me leve onde Tu estás. Me faça esquecer o conforto estéril daquele barco, não posso, não quero voltar lá nunca mais, não quero tirar os olhos de Ti e afundar, não quero a solução fácil de uma certeza calçada na ilusão.
Que eu veja (que não esqueça) que o barco é ilusão, por mais que meus sentidos o apalpem. Amém.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Que horas são?

O Bulletin of the Atomic Scientists mantém o chamado "Relógio do Apocalipse", ou "Relógio do Juízo Final", indicando quantos minutos faltam para a meia-noite, ou seja, para o fim do mundo. Em 1953, quando EUA e URSS divulgavam testes com bombas termonucleares, esse relógio esteve posicionado em 23h58. Com o alívio das tensões nucleares o relógio recuou um pouco. A série de quadrinhos dos anos 80 (quando o relógio do apocalipse foi adiantado graças à corrida armamentista no governo Reagan) Watchmen, de Alan Moore, brinca com esse relógio. O pingente "have a nice day" de um dos personagens recebe um respingo de sangue em forma de um ponteiro próximo à meia-noite e isso se torna o símbolo de toda a saga e planta logo no seu começo um curioso easter egg de seu final. Em 2015, o relógio do Juízo Final foi posicionado às 23h57 indicando que uma tragédia está prestes a acontecer, agora nem tanto por conta de bombas atômicas, mas de mudanças climáticas.

Mas você conhece as profecias e tem uma ideia do caminho para o qual este mundo está rumando. Onde você posicionaria o ponteiro dos minutos no relógio do Juízo Final? 

Em Watchmen, uma frase que aparece pixada nos muros é "who watch the watchmen?" (quem vigia os vigilantes?) Boa pergunta.

Os vigilantes da profecia dos tempos de Jesus tinham boas e sólidas razões para crer que o Messias viria de uma forma específica. Razões bíblicas, eu diria. Mas Jesus apareceu de um jeito completamente diferente. Será que os teólogos de então eram piores que os de agora? Jesus deixou uma série de sinais a respeito do tempo de Sua segunda vinda, sinais eloquentes. Se você está acompanhando o ótimo devocional de Marcos de Benedicto, viu esta semana que os habitantes de Pompeia falharam em enxergar uma série de sinais de que o Vesúvio estava ficando nervoso. O filme A grande aposta mostra como apenas uma meia dúzia de visionários enxergaram o colapso do sistema financeiro mundial em 2007/2008. 

Sabe, não acredito que a ênfase sublinhada, negritada, com setinhas piscantes em neon que Jesus deu à recomendação "vigiai, pois não sabeis a hora", foi dada sem propósito. O elemento surpresa estará presente e apenas a postura vigilante determinará sua salvação. Quem vigia os vigilantes? Jesus responde: você. E vigiar, aqui, não significa fazer sensacionalismo a cada espirro do papa ou a cada movimento do presidente dos Estados Unidos. Significa relacionar-se pessoalmente com Jesus Cristo e desenvolver uma confiança sem limites nEle.

Que horas são, amigo? 

Não sei quanto falta para a meia-noite, mas posso responder com segurança: é hora de conhecer a Jesus Cristo e colocá-lO como prioridade na sua vida.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Minha ambição

Aos pés do Sinai, Deus pede a Moisés que realize um censo do recém liberto do cativeiro no Egito povo de Israel. O resultado é de 603.550 homens de 20 anos para cima (Números 1:46). Depois disso, o povo sai daquele deserto e começa uma história triste e longa.

Eles resmungam por carne, Deus manda uma nuvem de codornizes, mas manda também uma "praga mui grande" e morre "muita gente" (Num 11:33). Na sequência, vão doze homens espionar Canaã e na volta dez deles fazem aquele relatório negativo, enaltecendo os gigantes e as cidades fortificadas e a aparente incapacidade de Israel guerrear com eles. O povo que tinha passado pelo mar Vermelho e visto o que acontecera ao exército que o perseguia simplesmente decide voltar para o Egito! Então Deus diz que aquela geração inteira vai morrer no deserto (Num 13 e 14), à exceção dos únicos dois dos doze que deram um relatório positivo, Josué e Calebe.

Segue-se uma guerra que Israel perde (14:39 em diante), a rebelião de Corá, Datã e Abirão, onde morreram cerca de 15.000 homens (Num 16). Nova murmuração pela dureza do caminho e pelo "miserável pão" (o maná) faz Deus tirar a proteção sobrenatural que os acompanhava por um tempo e o arraial se enche de serpentes "e morreu muita gente em Israel" (Num 21:6). Depois eles participam de algumas guerras e agora estão chegando às portas de Canaã. Estavam tão pertinho que começaram a se envolver com as mulheres de lá, no que parecia ser uma estratégia deliberada dos moabitas e midianitas para não serem destruídos por Israel. Mandaram as mulheres seduzirem os israelitas e mostrarem seus rituais pagãos tão mas interessantes que o ritual austero do santuário. A praga que se seguiu matou nada menos que 24.000 (Num 25:9).

Tudo isso aconteceu e agora Israel está "à altura de Jericó", só que do outro lado do Jordão (26:3), ou seja, estão prontos para finalmente invadir Canaã, 40 anos depois do êxodo. Ali Deus pede um novo censo. Toda uma geração havia morrido, passado por aquelas guerras todas e pragas e ainda assim o resultado do censo foi de 601.730 (26:51), ou seja, apenas 1.820 homens a menos.

Que chances haveria de um povo desse tamanho permanecer unido em uma situação inóspita e sofrer uma alteração tão estatisticamente irrelevante como essa se Deus não estivesse na equação?

Mas mais do que essa reflexão a respeito dos homens a menos, me impressiona a reflexão a respeito dos homens que continuavam. De todos que estavam no primeiro censo, só restaram Moisés, Josué, Calebe e Eleazar, o filho de Arão. Quatro homens, de toda aquela geração de mais de 603 mil. O Senhor conhece os seus (II Timóteo 2:19).

Confesso aqui minha ambição: quero ser dEle. Quero passar pelas guerras e pelos desertos sem murmurar. Quero conhecê-lO a tal ponto que nem me ocorra outra reação qualquer.

E quero companhia. A sua.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A cavalaria está chegando

Faça esta pergunta a si mesmo agora: sua vida seria realmente diferente se você não soubesse que Jesus vai voltar?

Se a atual ordem de coisas está prestes a ruir, o seu conforto na próxima ordem depende de quão rapidamente você a abraça e se engaja em sua instalação. Não uso aqui a palavra "conforto" com seu viés mais egoísta, mas me refiro à forma como você se ambientará na outra realidade. Por outras palavras, quando se vive numa fase de transição, a iminência da revolução coloca tudo em perspectiva. Você não se relaciona com os poderes reinantes da mesma forma que antes. Você adota uma postura mais ajustada à ética e aos valores que estão vindo.

Gritar "não vai ter golpe!" até a hora mesmo em que a mudança se consuma é a atitude que Pedro descreve aqui: "Antes de tudo saibam que, nos últimos dias, surgirão escarnecedores zombando e seguindo suas próprias paixões. Eles dirão: O que houve com a promessa da sua vinda? Desde que os antepassados morreram, tudo continua como dede o princípio da criação" (II Pedro 3:3 e 4).

Ignorar a transição é uma opção. Você pode se convencer de que tudo está como sempre esteve. Você pode fingir que não ouve o marchar dos ponteiros se aproximando da meia-noite. 

Ou você pode - e é isso o que significa a advertência do Mestre "vigiai! vigiai!" - passar a se relacionar com o atual príncipe deste mundo, sua ética e seus valores, de forma diferente. Você pode abraçar o espírito do Reino já agora, você pode se engajar na instalação desse Reino já agora, você pode - você deve! - pegar nas armas, adotar táticas de guerrilha, trabalhar pela deposição do tirano opressor em todas as frentes possíveis, já agora. Negando uma vantagem indevida, isso é uma granada que explode. Amando e velando por sua esposa como você prometeu solenemente fazer, isso é uma emboscada no inimigo. Buscando manter sua mente blindada contra aquelas fantasias pegajosas, permanecendo fiel a seus valores num mundo cínico, saindo do seu trajeto e chegando atrasado a seu compromisso para ajudar alguém ferido e abatido na beira da estrada, procurando primeiramente aquele Reino e sua justiça e deixando que tudo o mais seja acrescentado conforme seja a vontade do Rei porvir... são todos ataques aos flancos do inimigo. As portas do inferno, diz o Rei vindouro, não resistirão a esses ataques!

"O fim de todas as coisas está próximo. Portanto sejam criteriosos e estejam alertas; dediquem-se à oração. Sobretudo, amem-se sinceramente uns aos outros, porque o amor perdoa muitíssimos pecados." (I Pedro 4:7 e 8). Porque o fim, amigos, está próximo!

Ou será que a ciência de que a revolução final está às portas não tem impacto nenhum na forma como você vive e na forma como se relaciona com o rei atual e com o Rei que está chegando?

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Sob nova direção

Quando as coisas vão mal, a simples mudança na gerência do empreendimento é um sopro de esperança. Quantos times desacreditados não se tornaram campeões após uma mudança de técnico? 

Quando as coisas vão mal, a simples consciência de que a gestão passará a ser conduzida por alguém com outro discurso e a simples possibilidade de que essa gestão seja orientada por outra gama de valores pode ser uma luz no final do túnel.



Lembro de um comercial de TV que, salvo engano, foi exibido numa única oportunidade e, se lembro bem, foi no dia em que foi anunciada a eleição de Collor para Presidente. O comercial, patrocinado por um Banco, exibia cenas aéreas do Brasil até chegar no Palácio da Alvorada, em Brasília, enquanto Herbert Vianna lia com muita emoção um poema chamado "Santa Clara, clareai" (que agora São Google me informa ser "A oração para aviadores", de Manuel Bandeira). Era a esperança depois de uma noite longa. Era uma chance de acertar.

Se minha memória não me trai, isso aconteceu há 26 anos, e no entanto eu ainda lembro do gosto da esperança. Gosto que senti algumas vezes mais e que depois invariavelmente se fez amargo. Ainda assim, é muito bom senti-lo de novo.

Isso me remete ao dia em que senti um gosto novo em minha existência particular. Deve ter acontecido por volta de 1993, quando já era sabido que Santa Clara não havia feito um bom trabalho e Collor já ia defenestrado do Planalto. Eu tinha 20 anos e constatei estupefato que eu estava sob nova direção. Minha escala de valores havia sofrido uma revolução, minhas prioridades e afetos tinham virado de cabeça para baixo. O estudo da Bíblia, a constatação da atuação divina em minha vida e a interação com amigos muito especiais produzira aquela metamorfose. 23 anos mais tarde, o noticiário político do Brasil me conduz à frente do meu espelho para perguntar: "Continuo fiel a essa mudança doce, dulcíssima de direção?"

Estar sob nova direção é um imperativo. Quem está em Cristo, nova criatura é (II Coríntios 5:17). Nas palavras do saudoso Morris Venden, "conquanto possamos não saber precisar o dia e o lugar em que nos convertemos, todos podemos dizer se o fomos ou não". Me preocupo quando escuto de cristãos que nunca tiveram uma experiência assim. "Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (João 3:3). É necessário. É mandatório.

Morris Venden continua: "E conquanto não possamos operar por nós mesmos a nossa conversão, podemos pavimentar o caminho pelo qual isso se fará possível".

Se você não sabe o que é estar sob nova direção, saiba, meu amigo, que essa é a experiência a ser buscada com maior urgência e com maior afinco. É essa a emergência que todas as luzes piscantes ao seu redor indicam. Se colocar no ambiente em que isso acontece, passar a alimentar deliberadamente os pensamentos que se harmonizam com essa mudança de paradigmas, conhecer e prosseguir em conhecer a Bíblia e o Deus dela, isso é a prioridade de sua vida. Porque uma vida que não desemboca no "reino de Deus" é uma tragédia, é entornar ao chão o preciosíssimo sangue de Cristo, o único capaz de, esse sim, entregar um futuro idílico e à prova de amarguras.

E se você conhece a experiência, junte-se a mim nesse balanço. Aproveite a violenta mudança de direção sobre a qual os jornais não param de falar para avaliar se os princípios que o norteiam hoje estão alinhados aos que você recebeu naquele dia glorioso. Porque uma mudança de direção só é efetiva se você se mantém andando na nova direção.

Que possamos todos estar sob nova direção, e na direção certa.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Aliança

Você podia deixar de gostar de uma comida, podia ficar de mau com um cara que até então tinha sido seu melhor amigo, podia até mudar de time. Só havia uma volubilidade que você nunca, jamais, em hipótese alguma podia fazer. Só uma que fazia com que todos ao redor passassem a ter uma ideia amplamente desfavorável quanto ao seu caráter: romper uma aliança no War.

Juntamente com o Banco Imobiliário, War era o grande passatempo das tardes de chuva das férias. Você sabe, seus exércitos estão espalhados por um mapa múndi simplificado e você recebe um objetivo. "Destruir todos os exércitos azuis ou conquistar 24 territórios à sua escolha". "Reunir 50 exércitos no Oriente Médio". "Conquistar a Europa, a África e a Oceania". E, para alcançar seus objetivos, às vezes você fazia uma aliança, um tratado de não-agressão com um oponente. Essa aliança era sagrada. Se você tinha alguma intenção de atacar aquele jogador, devia negociar uma aliança por "x" rodadas, não podia jamais fazer uma aliança por tempo indeterminado e lá pelas tantas atacar o seu antigo aliado. 

(Pensando bem, levávamos as alianças no War mais a sério do que muitas pessoas levam a aliança do casamento, feita perante testemunhas e Deus, com uma roupa especial, etc..)

Conforme aprendi esta semana ouvindo ao pastor Felipe Tonasso, a palavra aliança no hebraico tem o significado de "estar acorrentado" a uma promessa. É um voto solene, algo que não pode ser quebrado. Algo mais parecido com as alianças infantis no War e menos com nossas sociedades adultas.
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Deus fez uma aliança com Noé. A repetiu com alguns acréscimos a Abraão. A repetiu de forma diferente com Moisés. E estabeleceu uma "nova aliança" ou um "novo testamento" em Jesus Cristo. Tomando esse voto pelo Seu próprio nome santo, Deus está acorrentado à promessa. Nada que eu faça ou deixe de fazer O demove dela. 

Isso significa que, para eu não gozar das promessas associadas a essa aliança (coisas como eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos, ou sereis salvos, ou temos paz com Deus, ou ...e Eu vos aliviarei, ou vida em abundância e paz que excede todo entendimento...) é necessário uma atitude de rejeição deliberada da aliança. É preciso, como Tonasso disse, seja com palavras, seja com a vida que escolhi levar, olhar nos olhos de Jesus Cristo e dizer eu te rejeito.

O incrível disso tudo é que eu entendo bem porque eu fazia alianças no War. Eu fazia alianças com iguais. Não me ocorria fazer uma aliança com alguém perdendo o jogo, quase a ponto de sumir do mapa. Deus, contudo, Se acorrentou deliberadamente com alguém que nada tem a oferecer. Ele nada lucra nessa aliança! Nada. 

É incrível, é comovente, é constrangedor. Mas então, o que falta para eu levar a sério o meu aliado?

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Onde estamos?

Hoje quero me apropriar das palavras de outra pessoa. Mais precisamente, das palavras de Ty Gibson, pastor em Eugene, Oregon (EUA), e codiretor da Light Bearers. A Adventist Review perguntou: "Onde você, pessoalmente, acredita que a Igreja Adventista está no fluxo da profecia bíblica?" Esta é a resposta:
"Profeticamente, a Igreja Adventista está na convergência entre a identidade do “remanescente” [Apocalipse 12:17], com todo o seu potencial latente, e a identidade de “Laodiceia” [Apocalipse 3:14-22], com toda a sua cegueira da autoilusão.
O adventismo é um gigantesco potencial não realizado! 

O problema é que, como povo, vivemos debaixo da ilusão persistente e autoinfligida de que “estamos terminando a obra”. Imaginamos que se apenas falarmos alto o bastante e com o alcance necessário, se tivermos o programa ou o mecanismo correto, se tivermos as maiores redes de televisão, então nossa missão será concluída. Assim, com nossos olhos de Laodiceia, supomos que temos simplesmente um problema de logística, e nunca nos ocorre que podemos ter um problema fundamental de conteúdo.
Há apenas uma coisa que pode ser feita para levar adiante a missão do adventismo. Precisamos refazer nossos passos históricos e voltar ao lugar onde vimos a luz pela última vez. E vimos a luz pela última vez quando a profetisa a este movimento morreu apelando para que o evangelho da justificação pela fé fosse plenamente incorporado à nossa construção doutrinária, nossos métodos missionais e nossos sistemas eclesiásticos.
[seguem vários exemplos de citações de EGW que endossam essa ideia]
Nossa situação atual é dupla: (1) As vozes estridentes à direita [isto é, ‘ultraconservadores’] têm redefinido “justiça / justificação pela fé” como “vitória sobre o pecado” e “obediência à lei”, colocando a ênfase e a responsabilidade sobre o agente humano. Essa é simplesmente uma versão atualizada da orientação egocêntrica e legalista que Deus tem buscado corrigir no adventismo desde 1888. (2) As vozes estridentes à esquerda [isto é, ‘liberais’] têm reagido ao legalismo à direita meramente desprezando ou negando doutrinas adventistas fundamentais ao adotarem um sentimentalismo vazio que erroneamente chamam de “graça”. E assim balança o grande pêndulo adventista!
O que precisamos urgentemente é de uma visão do evangelho que seja ricamente compreendida à luz da doutrina e da escatologia adventista [e uma doutrina e escatologia adventista compreendidas à luz do “evangelho eterno”, Apocalipse 14:6]. Quando isso acontecer, o impulso teológico que costumamos chamar de “alto clamor” tomará forma, e através dele toda a Terra será “iluminada” com a “glória” do caráter de Deus, derrubando assim (ou provocando a “queda”) das imagens distorcidas sobre Deus promovidas por “Babilônia” (Apocalipse 18:1-4)."
Amém.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Nova ordem

É isso aí o que nós temos. Lá, representantes de péssimo calibre, que aproveitam seus 10 segundos de cadeia nacional para assassinar o português e reforçar o estereótipo de que trabalham não pelo bem comum, mas por suas famílias, seu curral eleitoral e, no máximo, pelo seu estado, incapazes de mencionar o fato que teoricamente dava ensejo àquela votação, vociferando protestos anticorrupção como se fossem impolutos. Vergonha. Aqui, indignados de Facebook flamulando suas bandeiras míopes em discursos transbordantes de ódio e ignorância. Ali, violência, preconceito, desamor. É isso o que temos. Essa é nossa ordem de coisas.

"Veja, estou fazendo novas todas as coisas!" (Apocalipse 21:5 Viva).

A antiga ordem se encerra, e uma nova é estabelecida. Uma ordem em que o mar já não existe, é uma única nação pulsando em uníssono, sem ninguém que "pratique coisas vergonhosas ou mentirosas" (27), sem "covardes, incrédulos, depravados, assassinos, imorais, bruxos, ocultistas, ídolos e mentirosos" (8). Harmonia enfim. Nivelada por cima, e não por baixo. 

E Deus mesmo agora entre nós, acessível, próximo, palpável. "Eles contemplarão a sua face" (22:4). Porque a nova ordem, mais do que aquilo que não tem (representantes do povo de baixíssima qualidade movidos a fisiologia, mentirosos, imorais, etc), é marcada por aquilo que ela tem e que não havia na ordem anterior. Deus entre nós. Nós perto dEle. Sem ânsia por se esconder, sem vergonha por uma nudez inventada, sem a sensação de que seremos fulminados. E enfim sem a sensação de que algo nos falta.

Nada nos falta na nova ordem, é isso o que temos ali.

Você pode me chamar de escapista. Mas eu tenho esse consolo.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Os verdadeiros adoradores

Para ilustrar o que estava tentando dizer, perguntei ao auditório naquela manhã de sábado quantos ali haviam assistido ao primeiro culto. Várias mãos se levantaram, a grande maioria, aliás. 

- Então nós temos um problema sério - concluí. Afinal, culto não se assiste, culto se presta.

Os samaritanos defendiam o monte Gerizim, dentro de seu território, como sendo o único local correto de adoração, graças a esses malabarismos retóricos e argumentativos típicos dos teólogos. Quando aquela mulher samaritana percebeu que Jesus era mais do que um simples homem, aproveitou para lançar essa controvérsia e ver o que o profeta judeu dizia: "Senhor, vejo que és profeta. Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar" (João 4:19 e 20). 

A resposta de Jesus lançou uma profunda e radical alteração no entendimento do que é adoração. Ele disse que até aquele momento o local correto era mesmo Jerusalém, não importando as firulas teológicas em sentido contrário, mas que logo essa controvérsia seria tão útil quanto definir quem foi o melhor jogador, se Pelé ou Maradona. É que o elemento geográfico estava pronto a desaparecer. "Está chegando a hora", disse Ele, "e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade" (23). Quando Ele expulsa os vendilhões do templo, mais do que defendendo aquele edifício, Jesus estava expulsando os que adoravam com segundas intenções e tornavam a adoração dos "verdadeiros adoradores" praticamente impossível.

Durante séculos a igreja cristã não teve um templo e isso não foi problema nenhum, porque o conceito de templo estava superado. "Nem lá nem cá", foi a resposta de Jesus à samaritana, mas em todo lugar, constantemente. A dinâmica mudou. Você não vai mais atrair pessoas a um prédio santo para que lá elas conheçam a Deus. Agora, os que conhecem a Deus vão ("ide"!) e por onde vão fazem discípulos. 

Agora a igreja está andando. No exato instante em que escrevo isto, ela está espalhada pelos ônibus, subindo elevadores, escovando os dentes, comprando pão, ouvindo notícias no rádio do carro. No GPS divino, ela está se movendo pela cidade.

Não se engane, meu amigo. Não é uma determinada roupa, vestida num determinado dia, para ir a um determinado lugar que faz de você um adorador verdadeiro. 

O tempo já chegou. O tempo em que você adora a Deus quando o faz em espírito e em verdade, com espírito e com entendimento, com honestidade e com integridade. O tempo em que você presta cultos, e não apenas os consome como um expectador passivo. O tempo em que Deus é adorado na sua vida inteira, e não apenas em gestos automáticos mimetizados dentro do prédio em que a igreja se reúne.

Mas hoje, como nos tempos de Jesus, há os adoradores verdadeiros e há os falsos. De que tipo é você?

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Há uma luz à frente

Há uma grande luz à frente. Essa luz incide sobre pessoas e objetos lançando sombras compridas lá para trás. Segundo Colossences 2:16 e 17, os rituais do santuário conforme regulamentados por Moisés no Êxodo e no Levítico, eram apenas sombras de corpos que estavam à frente. O texto menciona especificamente as festas rituais que os hebreus celebravam anualmente.

Elas eram seis: a Páscoa, a festa de pães asmos, a festa das primícias, o Pentecostes, a festa de trombetas, o dia da expiação e a festa dos tabernáculos. Bem, se cada uma delas era sombra de um corpo futuro, isso indica que temos uma luz muito forte à nossa frente ainda, uma luz em cuja direção correr é praticamente o sentido maior da vida.

O pastor José Pereira, em A cruz antes da cruz, dá excelentes razões para identificar cada um dos corpos que projetam essas sombras. Melhor dizendo, ele identifica seis momentos da atuação de Jesus em nosso favor como projetando cada uma dessas seis sombras que a recém nascida nação hebreia deveria festejar anualmente, como uma antecipação do que aconteceria. Estas são as festas, em sua ordem cronológica:

Páscoa - essa é a mais fácil de identificar. A Páscoa era uma sombra da cruz. Assim como o cordeiro era morto na páscoa para libertar o povo da escravidão, Jesus seria o cordeiro que tira os pecados do mundo.

Pães Asmos - essa festa, que era coladinha com a da Páscoa, se notabilizava pela ausência total de fermento, uma clássica representação do pecado. A morte vicária de Jesus abre espaço para a justificação, a destruição do poder do pecado em nossa vida, o sepultamento do passado acompanhado do poder para viver uma vida nova.

Primícias - essa festa também era colada nas duas anteriores. Nela, os israelitas deviam dedicar a Deus os primeiros frutos de suas plantações. O dia da festa dos pães asmos era chamado de um sábado cerimonial, e as primícias aconteciam no dia seguinte. Um domingo, portanto. A festa das primícias é, muito claramente, uma sombra da ressurreição de Jesus. É por isso que, ao referir-se à ressurreição, Paulo chama Jesus de "as primícias" (I Coríntios 15:23). Se a páscoa simboliza o sacrifício vicário de Jesus e a festa dos pães asmos simboliza o poder regenerador desse sacrifício, a festa das primícias é um eloquente símbolo da esperança de que a morte não é definitiva para os que estão em Cristo. 

Manjares - a festa de manjares acontecia 50 dias após a festa das primícias. Daí vem o nome pelo qual essa festa passou a ser conhecida no novo testamento: pentecostes. Ficou fácil, né? A festa de manjares era uma antecipação do momento, também crucial no plano de salvação do homem, em que Jesus cumpriria a promessa de enviar a Sua igreja o Espírito Santo, que não apenas convence cada crente do pecado, da justiça e do juízo (João 16:8), como faria cada crente frutificar amor, paz, longanimidade, etc (Gálatas 5) e concederia o poder para pregar o evangelho ao mundo (Atos 2).

Trombetas e Expiação - Essas duas festas, que eram coladas, formavam um conjunto. A das trombetas acabava sendo uma preparação para a expiação, que, segundo a teologia adventista, é um símbolo do julgamento que acontece antes da volta de Jesus. Esse julgamento está acontecendo agora, e, segundo Apocalipse 14, ele seria precedido pelo anúncio da chegada desse tempo. A festa das trombetas, portanto, é uma sombra da primeira mensagem angélica de Apocalipse 14, que identificamos como sendo o fervor religioso que tomou conta do Ocidente em meados do século XIX, anunciando a breve volta de Jesus.

Tabernáculos - Na última festa anual, os israelitas passavam uma semana acampados em tendas, como forma de recordar o êxodo. Mas como toda celebração ritual, essa festa não apontava apenas ao passado, mas também ao futuro. Ela também era uma sombra de um evento futuro. O evento mais profetizado na Bíblia inteira, o momento em que Jesus retornará a essa Terra e "o tabernáculo de Deus estará com os homens" (Apocalipse 21:3).

Nas seis festas anuais está escrita a história da redenção do gênero humano. Dos seis eventos que elas profetizavam, cinco já aconteceram. Só resta um, e viver na expectativa desse último evento glorioso e cheio de luz coloca tudo em perspectiva. Minha escala de prioridades e afetos é impactada, a forma como utilizo meu tempo livre é impactada, meus relacionamentos são impactados e meus sonhos e projetos são transformados.

Corra para a luz.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Aquele tipo específico de medo

Agora que temer (com T maiúsculo) de repente virou uma palavra da moda no Brasil, chamo sua atenção para as centenas de vezes que ela aparece (com t minúsculo, felizmente) na Bíblia, convocando o homem a temer a Deus. "Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com sinceridade e verdade..." (Josué 24:14), "Temei ao Senhor, vós, seus santos, porque nada falta aos que o temem" (Salmo 34:9) e "Temei a Deus, e dai-lhe glória; porque chegou a hora do seu juízo" (Apocalipse 14:7) são apenas alguns exemplos. E é curioso, porque a frase mais repetida na Bíblia é justamente "não temas". Curioso e um pouco confuso?

Como conciliar o tão repetido conselho para desenvolver temor de Deus com a face amigável e acessível mostrada em Jesus? Acho que se não entendemos esse ponto corretamente podemos estar perdendo de vista algo tão relevante a ponto de ser repetido com tanta insistência nas Escrituras...

Encontrei uma pista para o significado desse temor a Deus nos encontros que diversas pessoas tiveram com Ele ou com Seus anjos na Bíblia. Nas raras oportunidades em que as cortinas entre a nossa realidade e a realidade subjacente, a realidade dos "principados e potestades", se abriram, em geral vemos pessoas amedrontadas. Isaías e João acharam que iam morrer, Daniel desmaiou. A primeira reação de Pedro ante o milagre da pesca fantástica que inaugurou o seu chamado para se tornar pescador de homens foi "aparta-te de mim, porque sou pecador!" (Lucas 5:8).

C. S. Lewis, em sua interessantíssima e inventiva Trilogia Cósmica, imagina como teria sido o seu próprio encontro com um anjo (aqui chamado de eldil): "Todas aquelas dúvidas que me ocorreram antes de entrar no chalé relativas a essas criaturas serem amigas ou inimigas... tinham desaparecido naquele momento. Meu medo agora era de outra natureza. Eu tinha certeza de que a criatura era o que chamamos de 'boa', mas não sabia ao certo se gostava do 'bem' tanto quanto tinha suposto. É uma experiência terrível. Enquanto aquilo que se teme é algo do mal, ainda é possível esperar que o bem venha nos salvar. Mas suponhamos que, com enorme esforço, se consiga chegar ao bem, para descobrir que ele também é medonho. E se o alimento acabasse sendo exatamente aquilo que não se pode comer, nossa casa o lugar onde não podemos morar, e o amigo que nos conforta a própria pessoa que nos deixa constrangidos? Nesse caso realmente não há salvação possível: a última carta foi jogada. Por um segundo ou dois, quase estive nessa situação. Aqui por fim estava um pedaço daquele mundo para além do mundo, que eu sempre tinha suposto amar e desejar, irrompendo e aparecendo aos meus sentidos. E eu não estava gostando. Eu queria que ele desaparecesse. Queria que entre nós se colocasse toda distância possível, abismo, cortina, obstáculo e barreira. Mas não cheguei a cair nesse abismo..." (in Perelandra).

O encontro com essa outra realidade coloca em contraste nossa própria indignidade e o que vem daí é esse tipo específico de medo.

Uma coisa é certa: você não ignora algo a que você teme. E boa parte de nossa desgraça vem de simplesmente ignorar a existência e a presença constante de Deus. 

Outra coisa é certa: você não brinca com algo a que teme. Com o tempo você pode até ficar confortável na presença dEle, e desse medo nasce o melhor dos prazeres, chamado simplesmente "paz", mas você jamais vai ser leviano com Ele. Você não banaliza aquilo a que teme.

E isso é bom. 

Temei a Deus, portanto. Quanto, contudo, às demais coisas deste mundo, o escuro, a incerteza, a solidão, a mágoa, o rancor, a distância e a separação, quanto a todas essas coisas e o que mais lhe possa parecer assustador, não temas.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Estupefato outra vez

Quando Paulo viu a Jesus naquela estrada para Damasco, ficou cego. Dias depois Barnabé orou por ele e ele sentiu como se umas escamas tivessem saído de seus olhos. Guardadas as devidas proporções, foi mais ou menos o que senti algumas vezes, sempre em relação à morte de Jesus. 

Bem distante na minha memória há fragmentos de uma exposição especialmente emocionante sobre a cena do Calvário. Eu ainda criança, impressionado com o que Jesus havia suportado. Mais tarde, escamas caíram dos meus olhos em pregações eloquentes, ou lendo livros como O desejado de todas as nações, de Ellen White, ou O Jesus que eu nunca conheci, de Philip Yancey, ou ainda lendo o texto  A morte de Jesus pelo ponto de vista de um médico, que recebi por email e que descreve com tintas vívidas os sofrimentos físicos de Jesus ou assistindo à Paixão de Cristo, de Mel Gibson.


Parece que de tempos em tempos eu preciso de um estímulo externo para considerar com a devida solenidade o gesto dEle. Isso sublinha o conselho de White a esse respeito: bom seria se passássemos uma hora por dia meditando na vida de Jesus, especialmente em seus últimos momentos. Nossa natural tendência à banalização de toda e qualquer coisa à qual estamos acostumados pode ser trágica, notadamente no que diz respeito ao Calvário e o caminho que levou até ele.

O fato é que a cruz foi a mais rasgada, a mais extrema declaração de amor da História. Uma declaração de amor tem o poder de mudar tudo. Ela pode colocar tudo em perspectiva. Se eu sigo indiferente a ela, joguei no lixo toda a carga revolucionária do amor mais puro, e tanto maior quanto improvável, ilógico, que existe.

Na primeira páscoa, a ordem era matar um cordeiro e aplicar o sangue dele nos umbrais da porta. Só isso salvaria os primogênitos de cada casa. Não adiantava, portanto, apenas matar o cordeiro. Isso de nada serviria para aqueles primogênitos caso o sangue dele não estivesse do lado de fora da casa.

Bem, a morte de Jesus, o Cordeiro que tira o pecado do mundo (e, logo, da minha vida também, que está contida no mundo), que ocupa praticamente um terço de cada uma das quatro biografias Suas que temos - os evangelhos, essa morte excepcional, surpreendente, injusta, angustiante, enternecedora, isso de nada vale se eu não pegar aquele sangue que escorre pela madeira da cruz e efetuar uma aplicação pessoal dele nos umbrais de meu coração. Se eu não refletir no que foi aquilo e responder adequadamente, se de tempos em tempos eu não sentir a falta de ar da estupefação, se tocar minha vida indiferente, se não permitir que as escamas de descaso me sejam removidas de tempos em tempos dos olhos... o cordeiro terá sido imolado em vão. Eu vou ter fechado a janela enquanto a declaração de amor mais pungente de todos os tempos estava sendo feita para mim. Vou ter saído do cinema antes do clímax do filme. Vou ter escolhido a calma quentinha da morte eterna e desprezado a emoção incomparável da Vida.

Não é isso o que quero pra mim. Ou para você.

Hoje, @migos, só me interessa o Cristo, e ele crucificado.

Feliz sábado! Feliz páscoa!


sexta-feira, 18 de março de 2016

Manifesto

Nesses dias em que a incrível abundância de fatos estarrecedores se sucede em velocidade de cruzeiro, criando um estado de excitação constante, debater política parece ainda mais espinhoso do que normalmente já é, especialmente quando se é um desiludido assumido como é o meu caso.
Essa semana compartilhei (caí na besteira de) um trecho de um texto de uma autora não confessadamente simpática ao regime de esquerda. O texto dizia que não havia justificativa plausível para Lula, mas o trecho específico que compartilhei argumentava que se a indignação das massas que invadiram as ruas no último domingo fosse realmente contra a corrupção como um mal em si, haveria bonecos de todos os corruptos envolvidos no escândalo, e não apenas da presidente e seu sucessor. Claro que isso me obrigou a passar o resto do dia respondendo a comentários odiosos ou simplesmente contrários a esse ponto de vista. Eu compreendia perfeitamente porque só havia bonecos de Lula e Dilma, mas achei que seria um bom pretexto para enfocar a relativa passividade com que engolimos outros escândalos de corrupção. 
Em 2002, discordando profundamente de certas atitudes e principalmente inércias de FHC, votei em Lula, cheio de esperança. Retirei completamente, contudo, meu apoio logo no primeiro ano de seu primeiro mandato, quando ele se despediu de Palocci, flagrado em um esquema de corrupção que envolvia prostitutas e a quebra do sigilo bancário de um caseiro de sítio, como se Palocci fosse um herói da resistência. No meu entendimento, o recado moral que ele dava à nação ali era mais desastroso do que qualquer desacerto na economia poderia ser. Não importava o quanto bem ele fizesse em qualquer campo de seu governo, aquele aspecto me parecia vital, especialmente de alguém que empunhara a bandeira da ética durante vinte anos. O que veio na esteira parece confirmar minha impressão.
Em O fiel e a pedra, o grande escritor pernambucano Osman Lins fala de outro caseiro, um homem rude incumbido de proteger uma propriedade que se torna alvo da ambição dos coronéis locais. Aquele homem tem tudo a perder, mas se mantém absolutamente fiel a sua missão. O curioso é que ninguém entende aquela atitude. Ele soa meio como louco. Parece que os latinos têm esse cinismo entranhado, essa falta de apego a valores absolutos, essa tendência a apoiar o que parece mais conveniente e a fazer pouco caso de certos deslizes dependendo de quem vêm. Àqueles que lhes soam simpáticos, todas as prerrogativas da lei, a começar pelo "in dubio pro reo", aos demais, o oposto. Ou será que não usamos de desculpas tão esfarrapadas quanto os partidários do PT para justificar os desmandos de nossos queridinhos da política e vice versa?
Fico com Cyro dos Anjos: "e no entanto, é preciso lutar pelo advento de um tempo em que a virtude dirija os homens". Fico com Jesus Cristo: "Seja, porém, seu falar sim, sim e não, não" (Mateus 5:37). Sem nenhum tom de cinza.
Meu singelo manifesto nesse momento de ebulição nacional é: vamos aprender a lição. Vamos usar essa indignação toda, por inteiro. Sem pragmatismo. E isso significa: mais do que enaltecer ideologias ou programas de governo, enalteçamos a integridade como um valor novo, como um valor supremo.
E que Deus tenha piedade deste país.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Ok, isso é um problema

[atenção: conteúdo adulto]

Uma tarde nesta semana passei um tempo em um site de garotas de programa. O site na verdade é um marketplace, com anúncios em diversas categorias, inclusive esse tipo de "serviços profissionais". Eles estão sendo acionados por alguém que teve um perfil falso criado ali e para fazer sua defesa foi que passei um bom tempo naquela sessão, analisando como ela funciona. A primeira impressão foi de profundo desconforto. Todas aquelas mulheres, algumas bem novas, com 19 anos, se expondo como pedaços de carne em um açougue e anunciando as coisas incríveis que fazem... A segunda impressão foi uma forte vontade de continuar olhando.

A psicóloga Talita Borges Castelão publicou na Revista Adventista de fevereiro uma coluna comentando os efeitos da pornografia na mente. "Há comprovação científica" ela escreve, "de que a pornografia é capaz de viciar, produzindo no cérebro um efeito similar ao do consumo de drogas. Ela atinge a região do cérebro que reconhece uma ação que gera prazer e busca repetição". Em muitos sentidos a luxúria é semelhante à gula, sobre a qual escrevi há duas semanas. 

Como qualquer vício, a pornografia pode ser destruidora. Há algumas semanas o ator Terry Crews (o eterno pai do Chris, de Everybody hates Chris) publicou um vídeo corajoso em que admitia que havia sido viciado em pornografia. "Aquilo bagunçou minha vida de muitas maneiras", ele afirma. Passava noites inteiras e entrava o dia adentro assistindo, assistindo e assistindo. Apenas quando sua esposa o deixou é que ele percebeu que tinha um problema. Ele não entra nos detalhes, mas você talvez conheça histórias de jovens casados que não procuram mais suas esposas para fazer sexo. Castelão afirma: "Algumas pessoas chega a ter comprometimento no trabalho e até param de ter relações sexuais com seus parceiros para usar o tempo com literatura e filmes pornográficos ou navegar na internet para a prática do sexo virtual". Ou seja, pessoas que juraram solenemente satisfazer seus cônjuges e serem satisfeitos apenas por eles, não conseguem mais se satisfazer com o ato despojado dos fetiches e transgressões típicos da pornografia e da prostituição.

É fácil. Para entrar no site de garotas de programa eu só precisei de dois ou três cliques, um deles num botão que dizia: "declaro ser maior de 18 anos". Simples assim. É fácil e muito, muito atraente. Precisei fazer uma breve oração para conseguir sair daquele site. É fácil, atraente, mas também viciante e destruidor. Ok, amigo, deixe me dizer com todas letras: isso é um problema.

Em I Timóteo 5:22 Paulo adverte o jovem pastor a "continuar puro". Em Filipenses 1:10 e 2:15 ele convida os crentes a se tornarem puros, o que indica que eles haviam perdido sa pureza e algum momento. Sua advertência soberana é "finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas." (Filipenses 4:8). 

Guarde sua mente. Ocupe-a com o que é puro. Você tem no coração uma fortaleza que precisa ser protegida com a própria vida. Essa é a batalha que vale a pena lutar.