sexta-feira, 29 de abril de 2016

Onde estamos?

Hoje quero me apropriar das palavras de outra pessoa. Mais precisamente, das palavras de Ty Gibson, pastor em Eugene, Oregon (EUA), e codiretor da Light Bearers. A Adventist Review perguntou: "Onde você, pessoalmente, acredita que a Igreja Adventista está no fluxo da profecia bíblica?" Esta é a resposta:
"Profeticamente, a Igreja Adventista está na convergência entre a identidade do “remanescente” [Apocalipse 12:17], com todo o seu potencial latente, e a identidade de “Laodiceia” [Apocalipse 3:14-22], com toda a sua cegueira da autoilusão.
O adventismo é um gigantesco potencial não realizado! 

O problema é que, como povo, vivemos debaixo da ilusão persistente e autoinfligida de que “estamos terminando a obra”. Imaginamos que se apenas falarmos alto o bastante e com o alcance necessário, se tivermos o programa ou o mecanismo correto, se tivermos as maiores redes de televisão, então nossa missão será concluída. Assim, com nossos olhos de Laodiceia, supomos que temos simplesmente um problema de logística, e nunca nos ocorre que podemos ter um problema fundamental de conteúdo.
Há apenas uma coisa que pode ser feita para levar adiante a missão do adventismo. Precisamos refazer nossos passos históricos e voltar ao lugar onde vimos a luz pela última vez. E vimos a luz pela última vez quando a profetisa a este movimento morreu apelando para que o evangelho da justificação pela fé fosse plenamente incorporado à nossa construção doutrinária, nossos métodos missionais e nossos sistemas eclesiásticos.
[seguem vários exemplos de citações de EGW que endossam essa ideia]
Nossa situação atual é dupla: (1) As vozes estridentes à direita [isto é, ‘ultraconservadores’] têm redefinido “justiça / justificação pela fé” como “vitória sobre o pecado” e “obediência à lei”, colocando a ênfase e a responsabilidade sobre o agente humano. Essa é simplesmente uma versão atualizada da orientação egocêntrica e legalista que Deus tem buscado corrigir no adventismo desde 1888. (2) As vozes estridentes à esquerda [isto é, ‘liberais’] têm reagido ao legalismo à direita meramente desprezando ou negando doutrinas adventistas fundamentais ao adotarem um sentimentalismo vazio que erroneamente chamam de “graça”. E assim balança o grande pêndulo adventista!
O que precisamos urgentemente é de uma visão do evangelho que seja ricamente compreendida à luz da doutrina e da escatologia adventista [e uma doutrina e escatologia adventista compreendidas à luz do “evangelho eterno”, Apocalipse 14:6]. Quando isso acontecer, o impulso teológico que costumamos chamar de “alto clamor” tomará forma, e através dele toda a Terra será “iluminada” com a “glória” do caráter de Deus, derrubando assim (ou provocando a “queda”) das imagens distorcidas sobre Deus promovidas por “Babilônia” (Apocalipse 18:1-4)."
Amém.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Nova ordem

É isso aí o que nós temos. Lá, representantes de péssimo calibre, que aproveitam seus 10 segundos de cadeia nacional para assassinar o português e reforçar o estereótipo de que trabalham não pelo bem comum, mas por suas famílias, seu curral eleitoral e, no máximo, pelo seu estado, incapazes de mencionar o fato que teoricamente dava ensejo àquela votação, vociferando protestos anticorrupção como se fossem impolutos. Vergonha. Aqui, indignados de Facebook flamulando suas bandeiras míopes em discursos transbordantes de ódio e ignorância. Ali, violência, preconceito, desamor. É isso o que temos. Essa é nossa ordem de coisas.

"Veja, estou fazendo novas todas as coisas!" (Apocalipse 21:5 Viva).

A antiga ordem se encerra, e uma nova é estabelecida. Uma ordem em que o mar já não existe, é uma única nação pulsando em uníssono, sem ninguém que "pratique coisas vergonhosas ou mentirosas" (27), sem "covardes, incrédulos, depravados, assassinos, imorais, bruxos, ocultistas, ídolos e mentirosos" (8). Harmonia enfim. Nivelada por cima, e não por baixo. 

E Deus mesmo agora entre nós, acessível, próximo, palpável. "Eles contemplarão a sua face" (22:4). Porque a nova ordem, mais do que aquilo que não tem (representantes do povo de baixíssima qualidade movidos a fisiologia, mentirosos, imorais, etc), é marcada por aquilo que ela tem e que não havia na ordem anterior. Deus entre nós. Nós perto dEle. Sem ânsia por se esconder, sem vergonha por uma nudez inventada, sem a sensação de que seremos fulminados. E enfim sem a sensação de que algo nos falta.

Nada nos falta na nova ordem, é isso o que temos ali.

Você pode me chamar de escapista. Mas eu tenho esse consolo.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Os verdadeiros adoradores

Para ilustrar o que estava tentando dizer, perguntei ao auditório naquela manhã de sábado quantos ali haviam assistido ao primeiro culto. Várias mãos se levantaram, a grande maioria, aliás. 

- Então nós temos um problema sério - concluí. Afinal, culto não se assiste, culto se presta.

Os samaritanos defendiam o monte Gerizim, dentro de seu território, como sendo o único local correto de adoração, graças a esses malabarismos retóricos e argumentativos típicos dos teólogos. Quando aquela mulher samaritana percebeu que Jesus era mais do que um simples homem, aproveitou para lançar essa controvérsia e ver o que o profeta judeu dizia: "Senhor, vejo que és profeta. Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar" (João 4:19 e 20). 

A resposta de Jesus lançou uma profunda e radical alteração no entendimento do que é adoração. Ele disse que até aquele momento o local correto era mesmo Jerusalém, não importando as firulas teológicas em sentido contrário, mas que logo essa controvérsia seria tão útil quanto definir quem foi o melhor jogador, se Pelé ou Maradona. É que o elemento geográfico estava pronto a desaparecer. "Está chegando a hora", disse Ele, "e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade" (23). Quando Ele expulsa os vendilhões do templo, mais do que defendendo aquele edifício, Jesus estava expulsando os que adoravam com segundas intenções e tornavam a adoração dos "verdadeiros adoradores" praticamente impossível.

Durante séculos a igreja cristã não teve um templo e isso não foi problema nenhum, porque o conceito de templo estava superado. "Nem lá nem cá", foi a resposta de Jesus à samaritana, mas em todo lugar, constantemente. A dinâmica mudou. Você não vai mais atrair pessoas a um prédio santo para que lá elas conheçam a Deus. Agora, os que conhecem a Deus vão ("ide"!) e por onde vão fazem discípulos. 

Agora a igreja está andando. No exato instante em que escrevo isto, ela está espalhada pelos ônibus, subindo elevadores, escovando os dentes, comprando pão, ouvindo notícias no rádio do carro. No GPS divino, ela está se movendo pela cidade.

Não se engane, meu amigo. Não é uma determinada roupa, vestida num determinado dia, para ir a um determinado lugar que faz de você um adorador verdadeiro. 

O tempo já chegou. O tempo em que você adora a Deus quando o faz em espírito e em verdade, com espírito e com entendimento, com honestidade e com integridade. O tempo em que você presta cultos, e não apenas os consome como um expectador passivo. O tempo em que Deus é adorado na sua vida inteira, e não apenas em gestos automáticos mimetizados dentro do prédio em que a igreja se reúne.

Mas hoje, como nos tempos de Jesus, há os adoradores verdadeiros e há os falsos. De que tipo é você?

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Há uma luz à frente

Há uma grande luz à frente. Essa luz incide sobre pessoas e objetos lançando sombras compridas lá para trás. Segundo Colossences 2:16 e 17, os rituais do santuário conforme regulamentados por Moisés no Êxodo e no Levítico, eram apenas sombras de corpos que estavam à frente. O texto menciona especificamente as festas rituais que os hebreus celebravam anualmente.

Elas eram seis: a Páscoa, a festa de pães asmos, a festa das primícias, o Pentecostes, a festa de trombetas, o dia da expiação e a festa dos tabernáculos. Bem, se cada uma delas era sombra de um corpo futuro, isso indica que temos uma luz muito forte à nossa frente ainda, uma luz em cuja direção correr é praticamente o sentido maior da vida.

O pastor José Pereira, em A cruz antes da cruz, dá excelentes razões para identificar cada um dos corpos que projetam essas sombras. Melhor dizendo, ele identifica seis momentos da atuação de Jesus em nosso favor como projetando cada uma dessas seis sombras que a recém nascida nação hebreia deveria festejar anualmente, como uma antecipação do que aconteceria. Estas são as festas, em sua ordem cronológica:

Páscoa - essa é a mais fácil de identificar. A Páscoa era uma sombra da cruz. Assim como o cordeiro era morto na páscoa para libertar o povo da escravidão, Jesus seria o cordeiro que tira os pecados do mundo.

Pães Asmos - essa festa, que era coladinha com a da Páscoa, se notabilizava pela ausência total de fermento, uma clássica representação do pecado. A morte vicária de Jesus abre espaço para a justificação, a destruição do poder do pecado em nossa vida, o sepultamento do passado acompanhado do poder para viver uma vida nova.

Primícias - essa festa também era colada nas duas anteriores. Nela, os israelitas deviam dedicar a Deus os primeiros frutos de suas plantações. O dia da festa dos pães asmos era chamado de um sábado cerimonial, e as primícias aconteciam no dia seguinte. Um domingo, portanto. A festa das primícias é, muito claramente, uma sombra da ressurreição de Jesus. É por isso que, ao referir-se à ressurreição, Paulo chama Jesus de "as primícias" (I Coríntios 15:23). Se a páscoa simboliza o sacrifício vicário de Jesus e a festa dos pães asmos simboliza o poder regenerador desse sacrifício, a festa das primícias é um eloquente símbolo da esperança de que a morte não é definitiva para os que estão em Cristo. 

Manjares - a festa de manjares acontecia 50 dias após a festa das primícias. Daí vem o nome pelo qual essa festa passou a ser conhecida no novo testamento: pentecostes. Ficou fácil, né? A festa de manjares era uma antecipação do momento, também crucial no plano de salvação do homem, em que Jesus cumpriria a promessa de enviar a Sua igreja o Espírito Santo, que não apenas convence cada crente do pecado, da justiça e do juízo (João 16:8), como faria cada crente frutificar amor, paz, longanimidade, etc (Gálatas 5) e concederia o poder para pregar o evangelho ao mundo (Atos 2).

Trombetas e Expiação - Essas duas festas, que eram coladas, formavam um conjunto. A das trombetas acabava sendo uma preparação para a expiação, que, segundo a teologia adventista, é um símbolo do julgamento que acontece antes da volta de Jesus. Esse julgamento está acontecendo agora, e, segundo Apocalipse 14, ele seria precedido pelo anúncio da chegada desse tempo. A festa das trombetas, portanto, é uma sombra da primeira mensagem angélica de Apocalipse 14, que identificamos como sendo o fervor religioso que tomou conta do Ocidente em meados do século XIX, anunciando a breve volta de Jesus.

Tabernáculos - Na última festa anual, os israelitas passavam uma semana acampados em tendas, como forma de recordar o êxodo. Mas como toda celebração ritual, essa festa não apontava apenas ao passado, mas também ao futuro. Ela também era uma sombra de um evento futuro. O evento mais profetizado na Bíblia inteira, o momento em que Jesus retornará a essa Terra e "o tabernáculo de Deus estará com os homens" (Apocalipse 21:3).

Nas seis festas anuais está escrita a história da redenção do gênero humano. Dos seis eventos que elas profetizavam, cinco já aconteceram. Só resta um, e viver na expectativa desse último evento glorioso e cheio de luz coloca tudo em perspectiva. Minha escala de prioridades e afetos é impactada, a forma como utilizo meu tempo livre é impactada, meus relacionamentos são impactados e meus sonhos e projetos são transformados.

Corra para a luz.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Aquele tipo específico de medo

Agora que temer (com T maiúsculo) de repente virou uma palavra da moda no Brasil, chamo sua atenção para as centenas de vezes que ela aparece (com t minúsculo, felizmente) na Bíblia, convocando o homem a temer a Deus. "Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com sinceridade e verdade..." (Josué 24:14), "Temei ao Senhor, vós, seus santos, porque nada falta aos que o temem" (Salmo 34:9) e "Temei a Deus, e dai-lhe glória; porque chegou a hora do seu juízo" (Apocalipse 14:7) são apenas alguns exemplos. E é curioso, porque a frase mais repetida na Bíblia é justamente "não temas". Curioso e um pouco confuso?

Como conciliar o tão repetido conselho para desenvolver temor de Deus com a face amigável e acessível mostrada em Jesus? Acho que se não entendemos esse ponto corretamente podemos estar perdendo de vista algo tão relevante a ponto de ser repetido com tanta insistência nas Escrituras...

Encontrei uma pista para o significado desse temor a Deus nos encontros que diversas pessoas tiveram com Ele ou com Seus anjos na Bíblia. Nas raras oportunidades em que as cortinas entre a nossa realidade e a realidade subjacente, a realidade dos "principados e potestades", se abriram, em geral vemos pessoas amedrontadas. Isaías e João acharam que iam morrer, Daniel desmaiou. A primeira reação de Pedro ante o milagre da pesca fantástica que inaugurou o seu chamado para se tornar pescador de homens foi "aparta-te de mim, porque sou pecador!" (Lucas 5:8).

C. S. Lewis, em sua interessantíssima e inventiva Trilogia Cósmica, imagina como teria sido o seu próprio encontro com um anjo (aqui chamado de eldil): "Todas aquelas dúvidas que me ocorreram antes de entrar no chalé relativas a essas criaturas serem amigas ou inimigas... tinham desaparecido naquele momento. Meu medo agora era de outra natureza. Eu tinha certeza de que a criatura era o que chamamos de 'boa', mas não sabia ao certo se gostava do 'bem' tanto quanto tinha suposto. É uma experiência terrível. Enquanto aquilo que se teme é algo do mal, ainda é possível esperar que o bem venha nos salvar. Mas suponhamos que, com enorme esforço, se consiga chegar ao bem, para descobrir que ele também é medonho. E se o alimento acabasse sendo exatamente aquilo que não se pode comer, nossa casa o lugar onde não podemos morar, e o amigo que nos conforta a própria pessoa que nos deixa constrangidos? Nesse caso realmente não há salvação possível: a última carta foi jogada. Por um segundo ou dois, quase estive nessa situação. Aqui por fim estava um pedaço daquele mundo para além do mundo, que eu sempre tinha suposto amar e desejar, irrompendo e aparecendo aos meus sentidos. E eu não estava gostando. Eu queria que ele desaparecesse. Queria que entre nós se colocasse toda distância possível, abismo, cortina, obstáculo e barreira. Mas não cheguei a cair nesse abismo..." (in Perelandra).

O encontro com essa outra realidade coloca em contraste nossa própria indignidade e o que vem daí é esse tipo específico de medo.

Uma coisa é certa: você não ignora algo a que você teme. E boa parte de nossa desgraça vem de simplesmente ignorar a existência e a presença constante de Deus. 

Outra coisa é certa: você não brinca com algo a que teme. Com o tempo você pode até ficar confortável na presença dEle, e desse medo nasce o melhor dos prazeres, chamado simplesmente "paz", mas você jamais vai ser leviano com Ele. Você não banaliza aquilo a que teme.

E isso é bom. 

Temei a Deus, portanto. Quanto, contudo, às demais coisas deste mundo, o escuro, a incerteza, a solidão, a mágoa, o rancor, a distância e a separação, quanto a todas essas coisas e o que mais lhe possa parecer assustador, não temas.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Estupefato outra vez

Quando Paulo viu a Jesus naquela estrada para Damasco, ficou cego. Dias depois Barnabé orou por ele e ele sentiu como se umas escamas tivessem saído de seus olhos. Guardadas as devidas proporções, foi mais ou menos o que senti algumas vezes, sempre em relação à morte de Jesus. 

Bem distante na minha memória há fragmentos de uma exposição especialmente emocionante sobre a cena do Calvário. Eu ainda criança, impressionado com o que Jesus havia suportado. Mais tarde, escamas caíram dos meus olhos em pregações eloquentes, ou lendo livros como O desejado de todas as nações, de Ellen White, ou O Jesus que eu nunca conheci, de Philip Yancey, ou ainda lendo o texto  A morte de Jesus pelo ponto de vista de um médico, que recebi por email e que descreve com tintas vívidas os sofrimentos físicos de Jesus ou assistindo à Paixão de Cristo, de Mel Gibson.


Parece que de tempos em tempos eu preciso de um estímulo externo para considerar com a devida solenidade o gesto dEle. Isso sublinha o conselho de White a esse respeito: bom seria se passássemos uma hora por dia meditando na vida de Jesus, especialmente em seus últimos momentos. Nossa natural tendência à banalização de toda e qualquer coisa à qual estamos acostumados pode ser trágica, notadamente no que diz respeito ao Calvário e o caminho que levou até ele.

O fato é que a cruz foi a mais rasgada, a mais extrema declaração de amor da História. Uma declaração de amor tem o poder de mudar tudo. Ela pode colocar tudo em perspectiva. Se eu sigo indiferente a ela, joguei no lixo toda a carga revolucionária do amor mais puro, e tanto maior quanto improvável, ilógico, que existe.

Na primeira páscoa, a ordem era matar um cordeiro e aplicar o sangue dele nos umbrais da porta. Só isso salvaria os primogênitos de cada casa. Não adiantava, portanto, apenas matar o cordeiro. Isso de nada serviria para aqueles primogênitos caso o sangue dele não estivesse do lado de fora da casa.

Bem, a morte de Jesus, o Cordeiro que tira o pecado do mundo (e, logo, da minha vida também, que está contida no mundo), que ocupa praticamente um terço de cada uma das quatro biografias Suas que temos - os evangelhos, essa morte excepcional, surpreendente, injusta, angustiante, enternecedora, isso de nada vale se eu não pegar aquele sangue que escorre pela madeira da cruz e efetuar uma aplicação pessoal dele nos umbrais de meu coração. Se eu não refletir no que foi aquilo e responder adequadamente, se de tempos em tempos eu não sentir a falta de ar da estupefação, se tocar minha vida indiferente, se não permitir que as escamas de descaso me sejam removidas de tempos em tempos dos olhos... o cordeiro terá sido imolado em vão. Eu vou ter fechado a janela enquanto a declaração de amor mais pungente de todos os tempos estava sendo feita para mim. Vou ter saído do cinema antes do clímax do filme. Vou ter escolhido a calma quentinha da morte eterna e desprezado a emoção incomparável da Vida.

Não é isso o que quero pra mim. Ou para você.

Hoje, @migos, só me interessa o Cristo, e ele crucificado.

Feliz sábado! Feliz páscoa!


sexta-feira, 18 de março de 2016

Manifesto

Nesses dias em que a incrível abundância de fatos estarrecedores se sucede em velocidade de cruzeiro, criando um estado de excitação constante, debater política parece ainda mais espinhoso do que normalmente já é, especialmente quando se é um desiludido assumido como é o meu caso.
Essa semana compartilhei (caí na besteira de) um trecho de um texto de uma autora não confessadamente simpática ao regime de esquerda. O texto dizia que não havia justificativa plausível para Lula, mas o trecho específico que compartilhei argumentava que se a indignação das massas que invadiram as ruas no último domingo fosse realmente contra a corrupção como um mal em si, haveria bonecos de todos os corruptos envolvidos no escândalo, e não apenas da presidente e seu sucessor. Claro que isso me obrigou a passar o resto do dia respondendo a comentários odiosos ou simplesmente contrários a esse ponto de vista. Eu compreendia perfeitamente porque só havia bonecos de Lula e Dilma, mas achei que seria um bom pretexto para enfocar a relativa passividade com que engolimos outros escândalos de corrupção. 
Em 2002, discordando profundamente de certas atitudes e principalmente inércias de FHC, votei em Lula, cheio de esperança. Retirei completamente, contudo, meu apoio logo no primeiro ano de seu primeiro mandato, quando ele se despediu de Palocci, flagrado em um esquema de corrupção que envolvia prostitutas e a quebra do sigilo bancário de um caseiro de sítio, como se Palocci fosse um herói da resistência. No meu entendimento, o recado moral que ele dava à nação ali era mais desastroso do que qualquer desacerto na economia poderia ser. Não importava o quanto bem ele fizesse em qualquer campo de seu governo, aquele aspecto me parecia vital, especialmente de alguém que empunhara a bandeira da ética durante vinte anos. O que veio na esteira parece confirmar minha impressão.
Em O fiel e a pedra, o grande escritor pernambucano Osman Lins fala de outro caseiro, um homem rude incumbido de proteger uma propriedade que se torna alvo da ambição dos coronéis locais. Aquele homem tem tudo a perder, mas se mantém absolutamente fiel a sua missão. O curioso é que ninguém entende aquela atitude. Ele soa meio como louco. Parece que os latinos têm esse cinismo entranhado, essa falta de apego a valores absolutos, essa tendência a apoiar o que parece mais conveniente e a fazer pouco caso de certos deslizes dependendo de quem vêm. Àqueles que lhes soam simpáticos, todas as prerrogativas da lei, a começar pelo "in dubio pro reo", aos demais, o oposto. Ou será que não usamos de desculpas tão esfarrapadas quanto os partidários do PT para justificar os desmandos de nossos queridinhos da política e vice versa?
Fico com Cyro dos Anjos: "e no entanto, é preciso lutar pelo advento de um tempo em que a virtude dirija os homens". Fico com Jesus Cristo: "Seja, porém, seu falar sim, sim e não, não" (Mateus 5:37). Sem nenhum tom de cinza.
Meu singelo manifesto nesse momento de ebulição nacional é: vamos aprender a lição. Vamos usar essa indignação toda, por inteiro. Sem pragmatismo. E isso significa: mais do que enaltecer ideologias ou programas de governo, enalteçamos a integridade como um valor novo, como um valor supremo.
E que Deus tenha piedade deste país.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Ok, isso é um problema

[atenção: conteúdo adulto]

Uma tarde nesta semana passei um tempo em um site de garotas de programa. O site na verdade é um marketplace, com anúncios em diversas categorias, inclusive esse tipo de "serviços profissionais". Eles estão sendo acionados por alguém que teve um perfil falso criado ali e para fazer sua defesa foi que passei um bom tempo naquela sessão, analisando como ela funciona. A primeira impressão foi de profundo desconforto. Todas aquelas mulheres, algumas bem novas, com 19 anos, se expondo como pedaços de carne em um açougue e anunciando as coisas incríveis que fazem... A segunda impressão foi uma forte vontade de continuar olhando.

A psicóloga Talita Borges Castelão publicou na Revista Adventista de fevereiro uma coluna comentando os efeitos da pornografia na mente. "Há comprovação científica" ela escreve, "de que a pornografia é capaz de viciar, produzindo no cérebro um efeito similar ao do consumo de drogas. Ela atinge a região do cérebro que reconhece uma ação que gera prazer e busca repetição". Em muitos sentidos a luxúria é semelhante à gula, sobre a qual escrevi há duas semanas. 

Como qualquer vício, a pornografia pode ser destruidora. Há algumas semanas o ator Terry Crews (o eterno pai do Chris, de Everybody hates Chris) publicou um vídeo corajoso em que admitia que havia sido viciado em pornografia. "Aquilo bagunçou minha vida de muitas maneiras", ele afirma. Passava noites inteiras e entrava o dia adentro assistindo, assistindo e assistindo. Apenas quando sua esposa o deixou é que ele percebeu que tinha um problema. Ele não entra nos detalhes, mas você talvez conheça histórias de jovens casados que não procuram mais suas esposas para fazer sexo. Castelão afirma: "Algumas pessoas chega a ter comprometimento no trabalho e até param de ter relações sexuais com seus parceiros para usar o tempo com literatura e filmes pornográficos ou navegar na internet para a prática do sexo virtual". Ou seja, pessoas que juraram solenemente satisfazer seus cônjuges e serem satisfeitos apenas por eles, não conseguem mais se satisfazer com o ato despojado dos fetiches e transgressões típicos da pornografia e da prostituição.

É fácil. Para entrar no site de garotas de programa eu só precisei de dois ou três cliques, um deles num botão que dizia: "declaro ser maior de 18 anos". Simples assim. É fácil e muito, muito atraente. Precisei fazer uma breve oração para conseguir sair daquele site. É fácil, atraente, mas também viciante e destruidor. Ok, amigo, deixe me dizer com todas letras: isso é um problema.

Em I Timóteo 5:22 Paulo adverte o jovem pastor a "continuar puro". Em Filipenses 1:10 e 2:15 ele convida os crentes a se tornarem puros, o que indica que eles haviam perdido sa pureza e algum momento. Sua advertência soberana é "finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas." (Filipenses 4:8). 

Guarde sua mente. Ocupe-a com o que é puro. Você tem no coração uma fortaleza que precisa ser protegida com a própria vida. Essa é a batalha que vale a pena lutar.

sexta-feira, 4 de março de 2016

As primeiras palavras

"Deixe assim por enquanto", foram as primeiras palavras de Jesus registradas na Bíblia, "convém que assim façamos, para cumprir toda a justiça" (Mateus 3:15). João Batista dizia que não fazia sentido ele, um pecador, batizar Jesus e essa foi Sua resposta.

O pastor José Carlos Ramos ontem me chamou a atenção para as primeiras frases de Jesus registradas em cada evangelho. Esse primeiro registro das palavras de Jesus, encontrado no evangelho de Mateus, me relembra minha própria impossibilidade/incompetência/impotência para guardar "toda a justiça". Nesse tempo em que ficam escancaradas as muitas faltas de nossos líderes, sou confrontado com o fato de que, guardadas as devidas proporções, também eu tenho dificuldades com esse negócio de integridade. Está no DNA, impregnado na raça à qual pertenço. Jesus, contudo, estava desde o princípio de Sua missão focado em cumprir "toda a justiça". Toda. E isso envolvia ter a experiência que cada um de nós precisa ter, a começar pelo batismo. 

As primeiras palavras de Jesus registradas por Marcos são igualmente significativas: "O tempo é chegado... o Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas"(1:15). Notem que o tempo chegou antes do Reino. O tempo chegou quando o Reino ainda estava próximo. O Reino é precedido por um tempo para arrependimento e para exercitar a fé. E quando Jesus diz isso é olhando no fundo do seu olho, meu amigo: o tempo chegou para você também.

As primeiras palavras de Jesus registradas por Lucas acontecem antes, quando Ele tem apenas 12 anos e seus pais o encontram no templo. "Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?" (2:49). Por outras palavras, Ele pergunta a José e Maria a razão de o procurarem tanto em outro lugar que não no mais óbvio.Você pode questionar se o templo da igreja hoje é o equivalente ao templo dos tempos de Jesus e eu vou dizer que não. A igreja é. Aquilo que o templo significava foi transferido para a coletividade de pessoas que manifestou crer em Jesus. Muita gente tem confessado desconforto com a igreja, mas ela continua sendo o instrumento usado por Deus para refletir Jesus e para propiciar o encontro mais substancioso com Ele. Se você quer cumprir toda a justiça através do poder dEle, se quer aproveitar o tempo que ainda lhe resta para experimentar o arrependimento e exercitar a fé, não pode ignorar a igreja.

Dois discípulos de João Batista seguiam Jesus e Ele virou-se para eles e perguntou: "O que vocês querem?" e essas foram as primeiras palavras de Jesus registradas por João (1:38).

É olhando fundo nos seus olhos que Ele hoje pergunta: o que você quer? Você quer encontrá-lO? Você quer integridade afinal? Quer aproveitar o tempo que tem?

Meu maior desejo como pai é que meus filhos queiram coisas boas. Intuo que Jesus olha para mim e para você com o mesmo tipo de desejo. O que você quer?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Gula

A famosa lista dos sete pecados capitais não nasceu assim do jeitinho que a gente a conhece. Ela sofreu alterações ao longo do tempo. Basta dizer que aquela que talvez seja a original, a primeirona (encontrada nos escritos de um monge chamado Evragio do Ponto, que viveu no século IV), tinha oito, e não sete vícios capitais. Mas a despeito de todas as adições, subtrações e mudanças de ordem dos fatores sofridas, uma coisa não mudou: ela sempre começa com a gula.

O que me sugere duas perguntas: por que será que todos esses teólogos, místicos e pensadores cristãos posicionam a gula como o vício que dá origem a todos os outros piores vícios? E o que é gula?

Começando por essa última pergunta, é importante refletir que entender gula como simplesmente a vontade de comer muito é uma redução do sentido original da palavra. Esses dias li este comentário de Foster e Beebe: "embora esteja associada principalmente à comida, a gula pode induzir a ações que refletem a perda da confiança na provisão de Deus". Nesse sentido, o que motivava aqueles israelitas que colhiam mais maná do que seria necessário para o dia, era uma espécie de gula. Por não confiarem plenamente que no dia seguinte Deus mandaria mais maná, acumulavam a comida milagrosa, apenas para vê-la apodrecer e cheirar mal no dia seguinte. 

A falta de confiança em Deus tem cor e cheiro de uma fraqueza capital, mesmo.

Mas mesmo em seu sentido mais moderno, que a associa à vontade de comer muito, a gula, que é o contraponto da virtude cristã da temperança, talvez esteja sendo subvalorizada e a epidemia de obesidade que nos assola pode ser uma evidência da coisa. E isso não se resume à quantidade de comida, mas também à qualidade. Qualquer discurso que pregue a abstenção disso ou daquilo é muitas vezes recebido como legalismo ou discurso castrador.

Não é à toa que a tentação que derrubou Eva e Adão tinha a ver com o apetite e que a primeira tentação do Diabo a Jesus no deserto era da mesa natureza. Possivelmente nosso inimigo comece exatamente por aí porque uma condescendência com o paladar e o apetite têm um efeito devastador na nossa capacidade de resistir a outras tentações e também na nossa vontade de o fazer. De outro lado, Deus faz com que uma vitória no campo do apetite nos empodere e abra espaço para vitórias que nem calculamos.

Os israelitas queriam morrer como escravos, abraçados às panelas com carnes e cebolas e por isso se revoltavam contra Deus. E você? Vai morrer abraçado a que? O que é que você consome que não consegue imagina a vida sem?

Querer vencer a gula é avançar na confiança em Quem realmente sabe o que é melhor para você. Ele começa dando a vontade de vencer. Depois dá o poder. Abrace os dois hoje!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Os heróis envergonhados

Aos doze anos, numa viagem de família de São Paulo ao Nordeste, precisando me entreter naquelas estradas intermináveis, comprei um gibi do Homem Aranha. Foi paixão à primeira lida. Pelos anos seguintes, li tudo o que consegui de gibis de heróis, porque estava apaixonado. Mas era uma paixão clandestina. Eu a confessava a uns poucos amigos, porque histórias em quadrinhos eram coisa de criancinha, e lá estava eu, com 16, 18 anos, lendo Batman e Watchmen. 

Muita coisa mudou desde então. Os heróis hoje são uma quase unanimidade, fazem os melhores filmes, estampam camisetas de marmanjos, levam multidões a eventos como a Comic Con Experience. 

O que me faz lembrar do vestibular da ESPM que prestei no ano em que começaram a se multiplicar as denúncias contra o então presidente Collor. O tema da redação foi "pobre do país que precisa de heróis". Nos sentíamos idiotas por ter acreditado que ele era o salvador da pátria que vinha montado num cavalo branco para combater as mazelas da nação. Não era.

O tempo passou e nós continuamos precisando de heróis, por isso forjamos outros. Fernando Henrique Cardoso, com sua classe e envergadura de intelectual, a capacidade de matar o monstro da inflação. Lula, com sua identificação com o povo sofrido e com o milagre do crescimento, o Brasil disparando como um foguete na capa da The Economist.

FHC agora lida com denúncias sérias. Lula também. Até o papa, herói mundial, perde as estribeiras.

São todos humanos. Todos humanos demais. E talvez exatamente pela falta de ícones de carne e osso os heróis fantasiados tenham alcançado a notoriedade que não tinham há algum tempo, porque nós precisamos da ilusão (?) de que alguns de nós poderiam ser algo mais.

Bem, quando você percebe que nossos grandes líderes têm fraquezas, pode dar de ombros e dizer: isso faz parte da paisagem. As minhas fraquezas e incoerências também são parte da paisagem. 

Ou pode acreditar que há uma oportunidade nesse estado de coisas. Pode confiar no Deus que disse "No dia em que eu agir... então vocês verão novamente a diferença entre o justo e o ímpio, entre os que servem a Deus e os que não o servem" (Malaquias 3:17 e 18). E pode se colocar à disposição.

Não para ser um ícone. Mas por ter escolhido o Ícone certo. Não para alcançar a glória fumacenta dos heróis humanos. Mas para sentir o que Romanos 5:1 chama de "a paz com Deus", a incomparável satisfação de ter permitido que Ele fizesse em você tudo o que Ele pode e quer fazer.

Quando todos estão decepcionados e acreditando que somos todos iguais e que nossas obras ocultas cheiram necessariamente mal, que você perceba a oportunidade. E se lance nas mãos de Quem o pode fazer algo muito diferente.



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O mestre em seu ofício

"Deus me fez com um propósito, mas também me fez rápido. Quando eu corro, eu sinto Seu prazer". A frase, que eu já citei em outra ocasião, é de Eric Liddell, um dos atletas britânicos que participaram dos primeiros jogos olímpicos da era moderna, cuja história foi contada no belo filme Carruagens de Fogo. Ele estava a ponto de embarcar como missionário mas decidiu adiar seu ministério para correr. Mas como Deus poderia ter prazer em alguém correr rápido?

Um dos subprodutos do dualismo, que cava um poço profundo entre o sacro e o profano, é o sentimento de que a única coisa que pode dar prazer a Deus é alguém pregar com eloquência ou cantar lindamente numa igreja. Reduzimos toda a lista de dons espirituais de Paulo, uma lista meramente exemplificativa, aliás, a esses dois, porque são os únicos dons que conseguimos ver em ação no ambiente da igreja.

Em Êxodo 31:3 Deus afirma haver enchido de Seu Espírito uma pessoa específica. Para que? Pregar? Fazer milagres? Profetizar? Não: para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, para talhar e esculpir pedras, para entalhar madeira e executar todo tipo de obra artesanal (v. 4 e 5). 

Você pode dizer: claro, nesse caso isso é um dom divino porque esse dom seria usado na construção do templo. Como se o Espírito de Deus atuasse desse jeito como uma exceção absoluta à regra de só tocar pessoas para pregar e cantar. Provérbios 8:31 diz que Deus se alegra com o mundo que criou e com a humanidade. Quando ela está pregando, unicamente? Acredito que não.

Você pode ficar chocado com o que vou dizer, mas adoro ver esses vídeos que as pessoas compartilham de mestres em seus ofícios porque vejo Deus neles. Tem o vendedor do algodão doce que esculpe coisas lindas com ele. Tem o cara que não se limita a abrir um coco, mas o entalha até ele ficar uma coisa linda e só então o serve. O último que vi é o cara que carrega o caminhão com botijões de gás usando só uma mão e jogando os botijões de longe até se encaixarem perfeitamente em seus lugares.

Um mestre em seu ofício é, pra mim, um lembrete do espírito criativo que herdamos dAquele de quem fomos criados à imagem e semelhança. Um mestre em seu ofício é um eco da excelência original em que fomos criados.

Se consigo abrir os meus olhos para ver o Espírito do Criador fora da igreja também (e eis que Ele se manifesta lá de muitas outras maneiras que não apenas no pregador e no cantor!), começo a divisar um Deus não encapsulado nos limites estritos daquilo a que chamo sagrado. E o sagrado desborda, como o leite fervendo. E a vida se torna sagrada. E um espírito de reverência, gratidão, alegria e solenidade me acompanha por onde vou (mesmo nos dias quando não é para a igreja que vou). E quando faço aquilo que faço muito bem e que se harmoniza com a Lei dEle, eu posso sentir o Seu prazer.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Um banho de sangue, por gentileza

Minha leitura da Bíblia esta manhã me brindou com esta epifania: falta sangue no meu pé, falta sangue no meu polegar e falta sangue na minha orelha.

Eu explico. Um belo dia Deus separou Arão para ser sumo sacerdote e seus filhos para serem sacerdotes em Israel. Eles deveriam comandar o ritual que tinha o santuário como palco, santuário que deveria ser criado conforme o modelo que foi mostrado a Moisés no Monte Sinai para que Deus habitasse no meio dos israelitas (Êxodo 25:8, 29:46).


A dedicação demandava um ritual especial (Êxodo 29). Moisés precisava lavar Arão e seus filhos com água, uma linda metáfora da justificação pela fé: Moisés representava a Deus e era Deus quem os lavava. A gente não pode pretender se lavar para então se aproximar de Deus, porque a gente não consegue se lavar. A obra é dEle. A nossa é se submeter à lavagem, como Arão e seus filhos fizeram. 

Então ele os vestia com as roupas sacerdotais. Seguiam-se alguns sacrifícios e o sangue de um cordeiro recolhido em uma vasilha era tomado por Moisés, que, com o dedo, o passava numa das pontas do altar do santuário, e então os passava na orelha, no polegar e no pé direitos de cada um dos sacerdotes.

A igreja Adventista colocou os escritos de M. L. Andreasen de escanteio, mas gosto da explicação dele para esse gesto um tanto nojento para nossa mente do século XXI (em Ritual do Santuário): o sacerdote deveria dar ouvidos à Palavra de Deus (sangue no ouvido), deveria ser consagrado em todas as suas obras (sangue no polegar) e em todos os seus caminhos (sangue no pé). Lembrando que aquele sangue simbolizava o que seria derramado por Cristo, o significado daquele ritual era mostrar primeiramente ao próprio sacerdote que ele estava banhado pela vida do Filho de Deus. E que isso tinha efeitos práticos visíveis no tipo de coisas a que ele deveria dedicar tempo a ouvir, no tipo trabalhos que desenvolveria e no tipo de rumos que tomaria para sua vida. As outras pessoas deveriam reconhecer esse fato. Bonito, isso.

Bem, o sacerdote atuava como um intermediário/intercessor entre o homem e Deus. Ele deveria ser uma ponte entre as pessoas e o Senhor. Eu não sou (pelo menos não sei que sou) descendente de Arão, mas esse papo é comigo desde que, na nova aliança, fui constituído sacerdote. Como escreveu Pedro (na versão de A Mensagem): "Mas vocês são os escolhidos de Deus, escolhidos para a alta vocação do trabalho sacerdotal, e para serem um povo santo. São instrumentos de Deus para fazer sua obra e falar por ele, e para contar a todos quanta diferença ele fez na vida de vocês - de nada para alguma coisa, de rejeitados para aceitos" (I Pedro 2:9 e 10). Ecoando as palavras que escrevi há algumas semanas ao falar da tentação de Moisés pelo anonimato e a zona de conforto, você não foi salvo apenas do seu passado; foi salvo do seu futuro também. Você e eu não fomos salvos para continuar no anonimato da condição de só membro de uma igreja. Você e eu somos os sacerdotes desse mundo caído. E o número de sacerdotes é proporcionalmente cada vez menor. 

Por outras palavras, há cada vez menos pontes entre as pessoas e Deus por aí. 

E se eu não tenho o sangue do Cordeiro sobre minha orelha, meu polegar e meu pé, há ainda uma a menos.

Lava-me, Senhor. Insiste mais um pouco com esse sacerdote relutante.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Muitos amores

Nós chamamos de "fazer amor" algo essencialmente egoísta, voltado à satisfação própria, satisfação de desejos e fantasias. Usamos a mesma palavra, "amor", para descrever o avesso total do egoísmo, uma Madre Teresa completamente devotada a pessoas que não podem retribuir nenhum favor. 
Por favor, não estou dizendo que sexo é sempre egoísta, só estou pontuando o fato de que estamos sujeitos a muitos "amores". Richard Foster e Gayle Beebe comentam assim:"Pelo fato de sermos propensos a amar e buscar amor, o propósito central de nossa vida com Deus é aprender a amar de tal forma que os desejos de nosso coração - naturais e sobrenaturais - sejam satisfeitos. Amar a Deus corretamente ordena todos os amores comuns à existência humana" (Sedentos por Deus, editora Vida).

Por outras palavras, precisamos aprender primeiramente a amar a Deus, para que não sejamos escravizados pelos outros amores todos ou não tenhamos amores doentes. "Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça...", disse o Mestre (Mateus 6:23). Isso é um processo. "A vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai crescendo mais e mais até ser dia perfeito" (Provérbios 4:18).

Orígenes, um teólogo que viveu no segundo século, afirmou que isso acontece em três níveis básicos. Começamos encontrando a Deus através de nossos sentidos. É uma constatação racional de que existe uma lei moral e ética que o homem passa a maior do tempo quebrando. Essa percepção sensorial nos dá o desejo de estar em harmonia com essa lei moral. Curiosamente é exatamente por esse ponto que C. S. Lewis começou suas famosas palestras sobre cristianismo na BBC durante a II Guerra Mundial (que depois viriam a se tornar seu clássico Cristianismo puro e simples). 

A ética nos conduz à Bíblia e à natureza. "Quando estudamos os processos físicos, adquirimos uma nova percepção dos caminhos de Deus. A vida resultante é iluminada e se baseia numa combinação de amor ativo e reflexão contemplativa".

O último estágio é o da comunhão constante com Deus, que tem como resultado o amor que vemos nas Teresas de Calcutá na vida, mas que vemos mais perfeitamente em Jesus Cristo.

Mais importante do que qualquer tentativa de sistematizar o processo até ser "luz perfeita", me interessa conhecer o alvo que devo perseguir. Semana passada eu defendia aqui que devemos estar sempre buscando conhecer mais do Deus a Quem adoramos. Bem, pelos insights de Orígenes eu vejo que meu objetivo é alcançar esse estado de comunhão constante. Ellen G White descreve esse estágio como aquele em que levamos cada pensamento cativo aos pés de Cristo. Ele está conosco escovando os dentes, subindo no ônibus, no meio de uma reunião, quando o semáforo fica vermelho, lavando a louça, ouvindo as notícias, fazendo amor, conversando com os amigos e navegando pela Internet.

O que desejo para você, meu amigo, é que imite Paulo: "esquecendo-me das coisas que ficaram para trás... prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus" (Filipenses 3:13 e 14). Talvez seu primeiro passo seja dar vazão à indignação que o invade quando dá de cara com escândalos de corrupção. Talvez seja aprender a mergulhar na Bíblia como o mercador de pérolas buscando suas joias. 

Para que hoje, mesmo sem ter alcançado o último estágio, você esteja dentro da circunferência alcançada pela graça salvadora de Jesus, você só precisa estar andando naquela direção, um pouquinho mais distante dos amores doentios, um pouquinho mais próximo do amor encarnado por Jesus. 

É o tipo de coisa que lhe desejo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Ídolos

É impossível ler a Bíblia, especialmente o Velho Testamento, e não ficar impressionado com a condenação que se faz da idolatria. A ênfase dada nisso é absolutamente desproporcional em relação a qualquer outro pecado. Ele parece estar no epicentro das decisões divinas por permitir que Israel seja subjugado, escravizado e levado em exílio por outros povos, e o mandamento, dos dez, que trata disso diretamente acrescenta uma advertência das mais curiosas: diz não farás imagens de escultura para os adorar "porque eu, o Senhor, o teu Deus, sou Deus zeloso, que castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e obedecem os meus mandamentos" (Êxodo 20:5 e 6). Uma coisa que merece tanto relevo assim na Palavra de Deus não poderia simplesmente desaparecer da face da Terra no tempo em que vivemos, correto?

Nunca vi ninguém falar ou escrever sobre isso sem tentar traçar um paralelo entre a idolatria do Velho Testamento e a prática moderna de colocar alguma coisa no lugar de Deus. Se você é cristão há algum tempo, certamente tem sido advertido de púlpitos, de revistas e de livros a não "idolatrar" o dinheiro, a TV, o esporte, o sexo, o trabalho, etc e etc. "Tudo o que você coloca no lugar de Deus se torna um ídolo para você". A gente até usa o termo ídolo para falar de astros pop. Eu concordo com essa tentativa de modernização da idolatria, mas temos que admitir que há um problema com ela.

Me parece que em momento algum existe menção na Bíblia a "adoração inconsciente". A adoração é sempre um ato consciente. O sujeito que se prostra perante uma estátua e reza a ela decidiu adora-la como uma divindade. Ele pode não acreditar no seu íntimo que aquilo é uma divindade, como a multidão na planície de Dura, que se prostrou perante a estátua de Nabucodonosor muito provavelmente porque a alternativa a isso era um decreto de morte (Daniel 3), mas o fato é que aquele monte de gente decidiu, conscientemente, tomar parte numa atitude de adoração.

A "idolatria moderna", contudo, segundo a visão geral cristã, é uma adoração inconsciente. Embora alguns de nossos "ídolos" requeiram algum tipo de culto, como acontece com certos torcedores de times de futebol, as outras coisas todas são objetos que amamos muito, mas que não tratamos conscientemente como uma divindade. Nenhuma adolescente reza a Justin Bieber pedindo que ele faça algum milagre, certo?

Não, eu ficaria mais preocupado com a possibilidade de estar adorando um deus falso. O  Novo Testamento adverte para falsos cristos,falsos profetas e uma falsa religião no final dos tempos. Pessoas que adoram o nome de Deus e de Jesus, mas que estão adorando um Deus e um Jesus falsos. "Nunca vos conheci", será a resposta dEle naquele dia.

Ultimamente tenho enxergado a idolatria como a adoração de um deus pela metade. Eu me conformo com o quanto aprendi dEle, com o quanto conheci dEle e então passo a louvar um deus distorcido. Um deus legalista demais ou liberal demais, um deus tipo "teologia da prosperidade" ou um deus distante e indiferente, um deus que não liga para coisas que Ele de fato dá muita importância ou o contrário. 

Quem é o Deus que eu conscientemente adoro? Quem é? Eu me conformei com duas ou três pinceladas de Seu retrato que um dia recebi e parei de procurá-lO? Eu perdi a sede e fome por conhecê-lO, eu liguei o ponto morto e me contentei com o deus que eu construí para minha maior conveniência? 

Isso é idolatria. "Conheçamos o nosso Deus, prossigamos em conhecê-lO" (Oseias 6:3).