sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Extraordinários


Toda época de eleições eu passo pela multidão de banners, cavaletes e placas com rostos de candidatos e sou assaltado por reflexões quanto à lógica da democracia. Já era assim quando morava em São Paulo, mas agora que moro numa cidade pequena o meu estranhamento fica ainda mais evidente. Em minha cidade, temos opções fantásticas concorrendo ao posto de vereador. Candidatos como Dejair Canibal, Sangue Bom, Tio João, Zé do Lava Rápido e Nice Carteira. São apenas exemplos extremos do esforço enorme que os candidatos fazem para ganhar identificação com o eleitor. Todo candidato quer parecer ser alguém do povo, alguém como você e eu.

E, no entanto, se pensarmos que a classe política é que vai, representando e em nome desse povo, definir seu destino na produção de leis que terão impacto direto no dia-a-dia de cada um, e que eles serão peça fundamental da aplicação dos recursos recolhidos com os impostos que todos pagam, o mais sensato seria esperar que o povo votasse nos melhores, naqueles acima da média, nos que vão além da mediocridade, seja em termos éticos, seja em termos de capacidade intelectual.

Jesus Cristo fez um grande (para nós, um gigantescamente incompreensível) esforço para se parecer comigo e com você. Ele tomou nossa forma, comeu nossa comida, suou nosso suor, sofreu as nossas dores. Mas ainda assim foi acima da média em tudo. Ele mostrou deter um conjunto de valores superior ao de qualquer outro do povo, e o mesmo com relação ao seu discernimento e com relação à coerência entre teoria e prática. Ele é Quem é porque é parecido comigo, mas faz muito mais e melhor do que eu faço. E o melhor: me chama a imitá-lo nisso também!

Quando leio: Se vocês amam somente aqueles que os amam, por que esperam que Deus lhes dê alguma recompensa? Até os cobradores de impostos amam as pessoas que os amam! Se vocês falam somente com os seus amigos, o que é que estão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! (Mateus 5:46 e 47), estou lendo o chamado a não me contentar com a mediocridade, não me contentar com o padrão reinante. Ele diz: “isso qualquer um faz. Eu espero mais de você!”

Jesus nos chama para ser extraordinários. Para ter uma pretensão mais alta. Para ter um objetivo mais ambicioso. Jesus nos tira da zona de conforto e aponta para cima, onde Ele próprio está. 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Tratado de tolerância


Em meio à cadeia infindável de tumultos ocasionados pelo filmeco caseiro americano anti-islâmico e às charges de Maomé publicadas na França, um interessante debate sobre os limites da liberdade de expressão se levantou no Ocidente. Devemos ofender declaradamente apenas para reafirmar nossa liberdade de poder fazê-lo? Agir de outra forma seria capitular à barbárie absolutista do fundamentalismo islâmico? E as vidas que foram e serão ceifadas pela fúria islâmica, não são um preço alto demais a pagar por esse valor principiológico da liberdade?

A reação mais diplomática do mundo islâmico foi o anúncio de que tentarão inscrever a blasfêmia como um crime nos Tratados Internacionais do gênero para, assim, conseguir uma ferramenta legal de repressão a expressões que os mais exacerbados muçulmanos reputam como ofensivas.

Este seria um caminho bastante perigoso, contudo, ao menos para uma importante parcela de muçulmanos ao redor do mundo. Reconhecer os axiomas desta ou daquela religião como sendo aplicáveis e oponíveis universalmente poderia desencadear um regime de reciprocidade altamente desvantajoso para o mundo muçulmano, já que é possível exercer essa fé com relativa tranquilidade em praticamente todos os países em que a maioria professa outra religião, mas a recíproca não é verdadeira. Assim, já que o Ocidente teria que entender ser um crime fazer uma caricatura de Maomé, estaria, por outro lado, liberado para proscrever a religião muçulmana como o cristianismo o é em diversos países islâmicos. É dizer mais ou menos o seguinte: você quer que eu engula esse preceito que você diz ser essencial na sua fé mas você não tolera o preceito essencial de liberdade da minha; nesse caso, você não faz jus à liberdade também.

Atrair a religião ao Estado, dar ferramentas de repressão legal por motivos religiosos, poderia dar ensejo a uma espiral de intolerância que colocaria em risco o processo de globalização ou, estressando ao máximo a situação, a própria vida como a conhecemos. E, no entanto, nossa Bíblia avisa que é exatamente um estado de coisas assim que será instaurado brevemente.

Para nós, que não saímos por aí ofendendo o Profeta mas que também custamos a entender a fúria que move as multidões ofendidas, esses eventos nos ajudam a lembrar de um princípio essencial: tolerância exige tolerância. Se você quer que as excentricidades de sua fé sejam toleradas pelos outros, precisa tolerar as bizarrices deles também. Não devemos ter medo de pensar assim, porque “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (I Coríntios 3:19), assim, nada mais natural que os sábios deste mundo nos vejam como excêntricos. Não é, contudo, agindo como se a nossa excentricidade fosse superior às dos demais que o evangelho da salvação será pregado. Jesus não forçou nenhuma porta, ao contrário, bateu suavemente em cada uma torcendo para ela ser aberta por dentro.

O cristão é um multiplicador de tolerância e compreensão. Missão cada vez mais complicada de se desempenhar, mas quem disse que seria fácil?

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Impossível


I.
Se pensarmos na palavra “impossível” na Bíblia lembraremos provavelmente da assertiva de Jesus de que para Deus nada é impossível. Mas essa palavra aparece em um outro texto que por anos tem colocado uma pulga atrás de minha orelha: “É impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e os poderes do mundo vindouro, e depois caíram, sejam outra vez renovados para arrependimento, porque de novo estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus, e expondo-o ao vitupério” (Hebreus 6:4-6).

Estamos afeitos ao “Deus da segunda chance”, mas este trecho – um texto tão obscuro que sequer aparece na minha concordância bíblica ao lado do verbete “impossível” - diz que há um perigo no horizonte para os que estão perto dEle. Ele diz que, para uma classe de pessoas, cair agora é selar seu destino.

Eu procurei não alimentar minha pulga para que ela não ficasse tão gorda, até que, esses dias, tropecei neste parágrafo de Dietrich Bonhoefer, a respeito do trecho do Sermão do Monte em que Jesus diz que somos o sal da terra: “... O sal pode perder seu sabor e deixar de ser sal. Ele simplesmente para de funcionar. Então ele é realmente inútil, só serve para ser jogado fora. Essa é uma peculiaridade do sal. Tudo o mais precisa ser temperado com sal, mas uma vez que o próprio sal perde seu sabor, ele não pode nunca ser salgado de novo. Tudo o mais pode ser salvo pelo sal, não importa quão mau seja – apenas o sal que perde seu sabor não tem esperança de recuperação. Esse é outro lado da figura. É o julgamento que impende sobre a comunidade de discípulos, cuja missão é salvar o mundo mas que, se cessar de viver para essa missão, estará irremediavelmente perdido. O chamado de Jesus Cristo significa que ou somos o sal da terra ou estamos aniquilados; ou atendemos ao chamado, ou somos jogados na rua e pisados. Não há segunda chance aqui.”

II.
Tatiana e eu nos participamos e lideramos grupos de estudo da Bíblia para casais. É curioso ver a reação de quase todos que participam desses grupos ou de retiros para casais. Geralmente os homens vão para coisas assim meio arrastados, mas depois de algum tempo revelam com surpresa que foi uma das melhores coisas que lhes aconteceu. Iniciativas como essa lhes dão a oportunidade de desligar o resto do mundo e focar em dos relacionamentos mais importantes da vida, seguramente o mais importante entre humanos. Quando os casais param tudo para focarem sua atenção um no outro é como se a chuva caísse sobre a terra depois de uma estiagem enorme. A vida brota. As velhas promessas e intenções são reavivadas.

Ellen White, que gostava muito de jardinagem, emprega essa imagem frequentemente: relacionamentos são como plantas. Precisam ser regados. Os mais importantes com maior profusão, ainda que à custa de muita coisa importante. O que é essencial é maior do que o que é apenas importante.

III.
Impossível é uma palavra muito, muito forte. Ela não tem apelação, não tem jeitinho que abra uma brecha.

Talvez a pulga atrás de minha orelha por causa do texto de Hebreus continue ali. Reluto em tirar uma conclusão definitiva sobre o que exatamente esse texto quer dizer, mas sei bem qual é o efeito que ele tem sobre mim: o de me exortar a vigiar. O de me exortar a regar o relacionamento mais essencial de todos, aquele que eu tenho com Deus. Se eu um dia deixá-lo em ponto morto, deixar que ele caia na vala da mesmice e da rotina automática, se eu não dialogar com o Espírito Santo respondendo aos seus apelos, estarei na rota da destruição. Um dia eu vou acordar e nada mais disso tudo vai fazer sentido. Se isso acontecer comigo, minha salvação terá sido jogada no vaso sanitário.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Vida e morte, Marina

Eu vim para que tenham vida.
João 10:10

Vasculhando meus papéis encontrei algo que escrevi no final de setembro de 2.001, no meio do caos que se instalou no mundo com o atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center, em 11/09 daquele ano. A mensagem, entendo, continua válida. Segue, pois, tal como o escrevi então:

“Já vamos para duas semanas em que não se fala de outra coisa. Parece que para todo lado que eu olho vejo fumaça, poeira, explosões, sangue, pavor, ou então homens de turbante brandindo metralhadoras, homens de terno com aspecto grave falando apressada e energicamente aos microfones.

Já vamos para duas semanas em que velhos ódios, guardados com algum cuidado em caixinhas nas gavetas de meias, são tirados para fora sem pudor e com a força que têm as coisas fermentadas na surdina durante muito tempo. Velhos desprezos reciclados.

Velhos preconceitos reeditados, renovados, reforçados.

Fala-se de guerra, fala-se de perseguição, novos atentados. Ninguém se sente absolutamente seguro, pois o inimigo pode bem morar ao lado, sorrir pra você de manhã, mas no recôndito de sua consciência alimentar ideias assassinas.

E do meio desse monte de poeira, sangue, lágrimas e medo, eu comecei a ouvir um choro. Mas é um tipo de choro bom, choro feliz. Foi com este e-mail:

"Fazendo jus ao lugar que vocês ocupam em nossos corações, estamos lhes avisando em primeira mão do nascimento de Marina Cestari Menegusso, hoje às 18:30, com 3,410Kg e 50cm, no Hospital Adventista de São Paulo. Conforme esperado, ela é linda (puxou o joelho da mãe), desinibida (nasceu peladinha), sociável (chora pra todos indistintamente), inteligente (já aprendeu a mamar) e logo mais estará resolvendo os problemas do mundo."

A alegria de pai novo do meu amigo Paulo foi um lembrete importante pra mim. É que no meio da desgraça e da tragédia a gente tende a começar a achar que a morte é a regra. Que a morte é natural. O choro da Marina, que eu só imaginei, não me deixou esquecer que no Universo de Deus, VIDA é a regra e morte é a excrecência, a exceção maldita que inventamos. No meio da realidade pensada por Deus, morte é um vírus, só existe espaço pra vida. A Marina foi quem veio e me disse: a morte não estava no programa. Morte, você é muito chata, mas seus dias estão contados!

Pode ser que essa menina não resolva os problemas do mundo, Paulo, mas começou bem.“

Faça uma força para ouvir e fique do lado da regra, não da exceção.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Você é livre?


Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.

João 8:36

Hoje o Brasil celebra sua independência frente a Portugal. Festejamos o dia em que demos o grito do basta, deixamos de ser o quintal do país europeu, chacoalhamos de sobre nós o jugo da escravidão e passamos a ser livres para determinar nossos próprios caminhos.

Na sequência escolhemos um monte de caminhos errados, é verdade, mas liberdade é o tipo de coisa que faz sentido comemorar. Ninguém questiona a alegria que nasce da libertação.

“Falai de tal maneira e de tal maneira procedei como havendo de ser julgados pela lei da liberdade”, orienta Tiago (2:12). Jesus andou na mesma linha dizendo que “se... o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36). Só que a maior parte das pessoas que eu conheço que abandona a fé e a congregação da igreja afirma, por atos ou palavras, que está justamente em busca de liberdade. Quer determinar seus próprios caminhos, escolher livremente o que fazer com seu corpo, seu tempo, seus recursos. Não é um paradoxo? Afinal de contas, mergulhar de cabeça em Cristo e aceitar de bom grado - com entusiasmo até - participar de Sua igreja liberta as pessoas? Mas como, se a maioria esmagadora das igrejas impõe um estilo de vida rígido e se arroga o direito de julgar quem dele discorda (ao passo que a minoria que não faz isso descamba, no mais das vezes, para uma atmosfera permissiva que dá a impressão de que a fé e o evangelho são acessórios inócuos)? Como se, fazendo isso, eu estou fatalmente deixando de fazer coisas que eu fazia livremente?

Um verso de uma das músicas de Leonardo Gonçalves me ajuda a desatar esse nó. Ele canta: “sempre estive preso ao meu prazer e minha dor/mas eu hoje tenho liberdade no Senhor...”. Viver para servir a seu próprio prazer e para evitar sua própria dor é uma falsa liberdade, por “n” razões. Que nosso coração e nossos sentidos são péssimos aios, fazendo com que o prazer de agora redunde em dor e sofrimento prolongado no amanhã é uma delas. Que fomos feitos à imagem e semelhança de um Deus que vive para servir, e, portanto, que o egoísmo é negar nosso propósito e nossa natureza originais é outra razão.

Reconhecer-se pequeno e submeter-se ao grande que nos ama é, sim, experimentar liberdade, liberdade que Jesus chama de “verdadeira”, indicando assim que há uma falsa liberdade. Fazê-lo é sentir-se livre de si mesmo, apto a resistir aos prazeres que – esses sim! – viciam e aprisionam e a suportar a dor que antecede a felicidade plena.

Essa liberdade não é fácil de entender, especialmente em nosso século. Admirar a liberdade difícil do evangelho denota maturidade espiritual. A mesma que lhe desejo, porque sentir o vento dessa liberdade no rosto é uma experiência indescritível.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Ídolos


Ellen G. White comenta em “Patriarcas e Profetas” que a figura do ídolo apareceu muito cedo na História, antes mesmo do dilúvio, e com uma boa intenção. Os seus fabricantes queriam ajudar as novas gerações a conhecerem a existência de Deus, mas o fato de Ele não ser visível e palpável parecia um entrave. Os ídolos, então, apareceram com funções didáticas, mas as consequências de querer reduzir a uma forma hominídea o que é transcendente foram trágicas: as pessoas passaram a atribuir àquelas estátuas de madeira e barro parecidas com homens as qualidades dos próprios homens, com seus defeitos todos. Cedo, portanto, na História do mundo, os deuses se tornaram irascíveis, caprichosos, teimosos, distraídos e vingativos. Assim, o padrão moral se reduziu drasticamente, redundando no ambiente que albergou a catastrófica história do dilúvio.

Pois bem, o ídolo é algo que pretende ser Deus mas que é menos do que Ele. Ora, a Bíblia adverte em milhares de passagens distintas contra os perigos da idolatria e temos dito por aí que a idolatria modernamente seria colocar alguma coisa no papel de centralidade e senhorio absoluto que é de Deus e dEle apenas. Tenho pra mim, contudo, que a idolatria pode ser bem mais do que isso.

Tome-se a imagem do Deus vivo que temos no cristianismo: Jesus Cristo. “Quem me vê a mim vê o pai”, Ele afirmou para Filipe (João 14:9). Pois bem, Ele disse que deveríamos guardar Seus mandamentos. Disse que os mandamentos podem se resumir a “amar a Deus e ao próximo”. Disse que veio para nos proporcionar o perdão e que o que se espera de nós na sequência é que saiamos por aí multiplicando esse perdão. “Nisso conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:35). Para dar cumprimento a esses mandamentos (que, graças ao poder que Ele nos confere, “não são penosos”), Ele ensinou que devemos ser humildes e pacificadores, devemos oferecer a outra face, abster-nos de reivindicar alguns de nossos direitos, pensar no bem estar dos outros antes de no nosso próprio e outras medidas impopulares.

Muito bem, se este é o nosso Deus, aquele a quem pretendemos estar adorando com nossos cânticos e orações, bem, se este é o nosso Deus e nós nos recusamos a fazer o que Ele diz, estamos adorando um deus que é menos do que Deus de fato é. Se nosso Deus é só o bom pastor para nós e os nossos, estamos adorando um deus que é menos do que Ele é de verdade. O cristão que não tem forças para amar e que está disposto a perdoar é um idólatra. Tem um deus pela metade no altar.

Cuidado com a idolatria, @migo! Cuidado!

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O modelo (última parte)


Porque Teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre, amém. Mateus 6: 13

Porque. Tudo o que se disse a Deus em oração faz sentido no confronto com ou decorre dessas últimas palavras. Elas dão o sinete de validade, de eficácia de todos os pedidos por proteção, perdão ou provisão de bens materiais.

Teu é o reino. Porque, Pai, reconheço Tua soberania, sou um súdito. Reconheço que existe uma vontade que tem prevalência sobre a minha. O reino é Teu. O império é Teu. E eu preciso nominar e verbalizar esse fato porque não existe nada mais difícil para um ser humano egoísta e individualista como eu do que abrir mão de guiar seus próprios caminhos, fazer as escolhas que lhe pareçam mais vantajosas. Deixa então eu repetir mais uma vez: teu é o reino.

Teu é o poder. Não estou me dirigindo a um Deus impotente. Não estou levando as coisas que me são mais importantes, as minhas situações mais desesperadas a alguém de mãos atadas ou incapaz de dar a saída mais eficaz para cada uma delas. Pelo contrário, estou falando com um Pai que pode perdoar, pode prover, pode cuidar, pode velar, pode salvar. Deixe-me declarar aos quatro ventos que acredito em um Deus poderoso, que já senti esse poder na minha vida. Talvez, aliás, eu precise ser relembrado dessa premissa básica todo o tempo, porque sou tentado a crer que as coisas conspiram contra mim ou que Tu tens coisas mais importantes para fazer do que ser meu Pai.

Tua é a glória. Glória é uma questão de justiça, já que justiça é dar a cada um o que é seu. Glória, portanto, tem a ver com mérito. Assim, Pai, vou terminar minha oração colocando as coisas em seus devidos lugares e o lugar da glória é sobre Ti. Reconheço que tudo o que é êxito, tudo o que é vitória, tudo o que é sucesso e benção devem ser tributados ao originador deles, que é meu Pai querido. A glória pelo que alcancei é Tua. A glória que alcançarei quando os pedidos que Lhe fiz forem realizados conforme a Tua soberana sabedoria, através do exercício de Teu poder que não conhece limites, enfim, a glória será toda Tua. Longe, muito longe de mim esteja gloriar-me. Termino assim minha conversa contigo, Pai, apontando para cima depois do gol. Que o mundo conheça que a glória de minha existência advém do fato de ser filho de quem sou, e que as pompas desse mundo para mim são nada, se não troféus da glória do Pai.

Amém.

O pêndulo


Nós todos repetimos felizes, como um mantra, que “O Senhor é o meu pastor e nada me faltará”, mas a força total desse texto só é entendida quando se está a ponto de sentir a falta de algo, quando alguma coisa essencial ameaça faltar.

É nesse momento que trazer à memória a existência de um Deus que ama e que age, com o mesmo zelo que um pastor em relação a suas ovelhas, tem um efeito terapêutico incomparável. Nós descansamos antes mesmo de ver chegar aquilo que está por faltar. Sem a confiança em Deus nos resta a ansiedade e talvez não haja nada mais oposto à “vida em abundância” sobre que falou Jesus do que a ansiedade. Quem vive ansioso não vive abundantemente. Sobrevive, apenas, e consumido pelo medo.

Mas Jesus um dia disse que são felizes os que têm fome e sede de justiça. Ele disse que é bom ter ansiedade por justiça neste mundo injusto. Quando Ele estava soterrado pelos pecados de toda uma raça, sofrendo a humilhação, a dor e a angústia de Se ver separado do Pai naquela cruz, Jesus soltou o maior dos brados por justiça de que se tem notícia: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Ele morreu sem resposta. Ora, o servo não é maior que seu mestre, logo, podemos esperar por momentos em que parece que Deus nos abandonou; momentos em que clamaremos e a resposta será um retumbante silêncio.

Enquanto estivermos deste lado da eternidade, nossa vida e nossa luta serão um pêndulo entre o “nada me faltará” e o “por que me abandonaste?”. É claro que há uma outra alternativa: a indiferença, a sonolência, a distração. Essa terceira alternativa parece bem melhor do que o “por que me abandonaste”, mas não se engane: não é. Não desejo isso para absolutamente ninguém. É melhor alguém sentindo-se desamparado e clamando ao Deus que aparentemente Se esqueceu do que vivendo como se Ele fosse parte da paisagem, sem maior atenção. Estamos salvos quando sentimos falta de algo (para dar valor ao “nada me faltará” ou para clamar pela presença de Deus).

Portanto, que algumas coisas lhe faltem, @migo, para que você viva e conheça uma profunda intimidade com o Pastor.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O modelo (parte 11)


Mas livra-nos do mal
Mateus 6:13

Definitivamente, por mais que isso violente os axiomas tidos por razoáveis e verossímeis pela racionalidade de nosso tempo, o mal existe. Ele é nominado por Jesus, considerado uma realidade suficientemente relevante para ser incluída na oração modelo. Depois de se preocupar com a entrega dos próprios caminhos nas mãos de Deus, com o sustento diário e com o perdão - essencial à nossa saúde emocional e até mesmo física, Jesus nos orienta a terminar nossos contatos com o Pai suplicando força para vencer a tentação e libertação do mal.
Pela colocação da frase (“não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal”) podemos ver esse “mal” como algo além dos perigos físicos que nos cirandam todo dia, envolve a tentação também. Assim, a súplica por livramento do mal envolve suas facetas mais materiais e também as espirituais.

Mas por que eu preciso pedir ao meu Pai, que me ama, que me proteja? Não é desnecessário? Talvez a utilidade disso não esteja em alcançar aquilo que estamos pedindo, já que o teríamos mesmo sem pedir, mas a importância de repetirmos esse pedido dia após dia reside no fato de que isso nos ajuda a lembrar que estamos sujeitos ao mal, seja ele físico ou espiritual.

Um mês antes de eu escrever este texto meu sogro caminhava pela calçada próxima a sua casa. Queria perder umas últimas gramas para estar o mais esbelto possível no casamento de sua filha do meio, no dia seguinte. De repente ele se viu no chão, esvaindo em sangue, sem saber exatamente o que havia acontecido. Um garoto dirigindo perigosamente o atropelou sobre a calçada, fugindo em seguida. Ele está fora de perigo hoje, mas a cada mínimo movimento de sua perna ou de seu braço fraturados uma dor lancinante injeta nele a dolorosa consciência da vulnerabilidade.

Para não precisarmos depender de chacoalhões trágicos como esse para só então volvermos o rosto para cima e zelar pelo relacionamento com o Pai é que nos é útil repetir a cada dia, várias vezes ao dia, a súplica que serve como um auto-lembrete de que estamos todos constantemente sujeitos ao mal. O lembrete de que o mal é maior que nós e de que todos os nossos planos, projetos, estratégias e aspirações são pó e a isso podem ser reduzidos por um instante em que as coisas fogem ao controle.

A tentação de esquecer isto é enorme, porque todos os dias abrimos os olhos e estamos vivos, o sangue percorrendo as veias, as coisas em seus devidos lugares. 

O bom samaritano revisitado


A lei máxima, a lei da qual decorriam todas as outras, envolvia amar o próximo. Aí um bom advogado, atento às brechas da lei, perguntou a Jesus qual era a definição de próximo. Jesus contou a parábola do bom samaritano para deixar cristalinamente claro o óbvio: próximo é quem está perto. Qualquer pessoa, de qualquer tribo e com qualquer passado. Quem está perto deve ser amado, isto é a lei e ponto. Mas por que Jesus acrescentou ao relato o detalhe da conversa com o estalajadeiro? O ato de amor e altruísmo do samaritano já estaria bem evidenciado sem ele.

Como muitas das palavras de Jesus, a parábola do bom samaritano pode ser virada do avesso para indicar novas e fantásticas verdades. Meu amigo Gabriel esteve hospedado aqui em casa há algumas semanas e dividiu comigo estes insights:

E se olharmos para a parábola nos colocando na pele do homem que foi assaltado e espancado na estrada para Jericó, ao invés de nos colocarmos na pele de quem passa por perto e o vê desacordado, como costumeiramente o fazemos? Aparece alguém improvável (na história, por ser de um povo inimigo; na realidade, por ser o Rei do Universo) e se ajoelha ao nosso lado, faz curativos em nós, nos levanta em seus ombros e nos coloca sobre sua montaria, andando o resto do trajeto a pé. Ele nos leva até uma hospedaria, paga do próprio bolso nossa estada e diz ao estalajadeiro: se ele gastar algo mais, por favor, use seus próprios recursos, porque quando eu voltar por aqui eu o pagarei.

Você e eu fomos alvos de um amor desapegado, altruísta, improvável, por vezes até implausível. Estávamos derrotados, caídos, machucados. Jesus desceu da glória em que habitava, nos colocou nela enquanto estamos sendo curados, abriu mão de Seus recursos todos e então nos confiou à igreja. Ele deu recursos à igreja, mas disse-lhe que possivelmente ela teria que lançar mão de seus próprios recursos, com a promessa de que, ao voltar, Ele a compensaria.

Se você já se sente curado das maiores feridas que o pecado lhe fez, então é tempo de você passar do papel de vítima do assalto para o de estalajadeiro, cuidando dos feridos, servindo-os, aplicando seus próprios recursos de tempo, dinheiro, talentos e conhecimento para vê-los fortes e de pé. Quando Ele voltar, não deixará nenhum ato de amor sem seu justo salário!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O modelo (parte 10)


e não nos deixes entrar em tentação...
Mateus 6:13

Você já parou para pensar em por que Jesus nos orienta a pedir a libertação da tentação em Sua oração modelo? Cheguei à conclusão de que há três fortes razões. Veja se concorda comigo:

1.    Porque a tentação é real. Em uma aula de filosofia da faculdade, o professor discorria sobre o mito da caverna de Platão, pelo qual o homem estava amarrado no fundo de uma caverna escura (metáfora da concupiscência, dos desejos carnais) e deveria desprender-se e rumar para a iluminação da sabedoria racional. Perguntei ao professor a razão pela qual o homem se encontrava nessa situação e ele terminou a aula mais cedo. Não tinha resposta.

Para fugir a essa inquietante pergunta o homem moderno busca negar a existência do Mal. Satanás é uma ficção. Dostoievski, brincando com isso, afirma: "Se o diabo não existe, e por conseguinte foi criado pelo homem, este deve tê-lo feito à sua imagem e semelhança" (em “Os irmãos Karamázovi”). Mas ele existe. A tentação, as amarras de nossa escura caverna são reais.

2.    Porque a tentação é constante. Em muitos momentos Jesus diz que devemos orar constantemente, insistentemente, e, no modelo que deu, disse que devíamos solicitar ao Pai ajuda para vencer a tentação. Não se trata de o pedir uma vez por mês, ou na visita semanal à igreja. É um pedido para estar o tempo todo à nossa frente, porque o Mal não apenas existe e está interessado em nos manter amarradinhos no fundo da caverna, mas busca fazê-lo de muitas maneiras, por muitos expedientes, em todo tempo.

3. Porque não precisamos cair em tentação. Ser tentados é natural, acontece a todo tempo, mas o fato de Jesus nos instar a pedir que o Pai não nos deixe cair nela revela que ela não é invencível. Essa mensagem é um balde de água fria pra muita gente, que gosta de pensar que tem muitas limitações, problemas que vêm desde sua criação, ou que pertencem a sua personalidade e que o Senhor Se conforma com que permaneça assim.
Não somos animais, escravizados por instintos e paixões. Não precisamos ficar amarrados no fundo da caverna. Com essa simples frase da oração modelo Jesus encerra duas passagens bíblicas importantíssimas e que se auto completam: "Sem Mim nada podeis fazer" (João 15:5) e "Tudo posso nAquele que me fortalece" (Filipenses 4:13).

Assim, embora o Mal seja real e esteja o tempo todo nos cirandando, "como um leão buscando a quem tragar" (I Pedro 5:8), e embora não tenhamos forças para lidar com ele, não precisamos fazer dele nosso objeto principal de atenção, mas sim Aquele que nos torna possível a vitória sobre qualquer tentação. Se Ele nos incentiva a pedir isso, é porque recebê-lo é não apenas plenamente possível, mas sim algo que o Pai está louco de vontade de dar.

O evangelho do reino


Por anos a expressão “evangelho do reino” tem sido objeto de reflexão e estudo para mim. Jesus disse que “este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim” (Mateus 24:14). Todos os outros sinais que Ele dá, até este ponto, a respeito de Sua segunda vinda (guerras, fomes, pestes, falsos profetas, etc) são inconclusivos; Ele afirma para não nos assustarmos com eles, eles não indicam o fim (verso 6). Este, contudo, é diferente. Passa a ser, então, vital para mim descobrir o que exatamente é o evangelho do reino.

Há cristãos pregando mundo afora todo tipo de evangelho. Há o evangelho que é anti outras vertentes, há o evangelho que é pró clero, há o evangelho anti-homossexualismo ou anti-aborto, há o evangelho do dízimo e da prosperidade, o evangelho dos mandamentos, o evangelho do amor e da tolerância irrestritos e tantos, tantos outros. Qual deles seria o evangelho do reino? Qual deles seria aquele que prega a ênfase exata de Jesus, para o qual todas as outras coisas boas e saudáveis são acessórios importantes, mas não o epicentro da pregação?

Não admira que eu fique aqui quebrando a cabeça para entender o que significa o evangelho do reino. Afinal, o Jesus contou dezenas de parábolas para explicar com quê o “reino dos céus” se parece. Esse reino pode ser enxergado por muitos ângulos diferentes e, para entendê-lo, Ele nos convida a considerar coisas tão diferentes quanto um semeador, uma semente de mostarda, um mercador de pérolas, um dono de terras que contrata trabalhadores ou um rei que prepara uma festa de casamento para seu filho.

A chave da compreensão dessa expressão está, acredito eu, no capítulo 4 do mesmo livro de Mateus. Ele descreve os primeiros passos do ministério público de Jesus: “Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (verso 17). Jesus então começa a convocar Seus discípulos e andar pela Galileia com um único discurso: “Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo” (verso 23).

O que sei do reino dos céus, então, é que, embora Jesus tenha começado pregando que ele estava próximo, nos dias de Jesus efetivamente chegou. Ele afirmou para não sairmos procurando este reino aqui ou lá, “porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:21). A outra certeza que temos a respeito do reino é que ele envolve arrependimento. Arrependimento pressupõe reconhecer que o caminho em que temos caminhado é mau, estando disposto a abandoná-lo. Se você nunca vivenciou o arrependimento está em qualquer lugar, menos nos domínios do reino de Deus, e se o evangelho que você prega ou escuta não envolve uma mudança de vida, uma transformação radical de seus valores e prioridades, não se trata do evangelho do reino de Deus. É um embuste, uma farsa.

Este reino já está aqui. Posso, como um embaixador do reino em terra estrangeira, mas em caráter transitório, posso respirar seu ar benfazejo, incorporar sua ética superior, me orgulhar de ser súdito do único soberano que é Justo e é Amor. Para tanto, preciso largar o caminho ao qual estou afeito e no qual me sinto confortável. Esta é a mensagem que preciso desesperadamente viver e pregar ao mundo.

Feliz sábado, @migos!
Marco Aurelio Brasil, 10/08/12

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O modelo (parte 9)


...assim como nós também temos perdoado aos nossos devedores. Mateus 6:12

Finalmente chegamos ao ponto da oração modelo em que aparentemente Jesus nos incentiva a continuarmos fazendo o que mais gostamos de fazer quando oramos: barganhar. “Veja, Senhor, já que eu tenho perdoado aos outros, mereço o Teu perdão também”. Somos exímios em mostrar a Deus a conveniência de atender os nossos pedidos. Ainda que eventualmente não tenhamos a cara de pau de listar nossos bons atos como que nos recomendando a Deus, somos hábeis em tentar dar a entender que pode ser bom para Ele fazer o que pedimos. Por absurda que seja essa ideia.

Ocorre que essa hipótese não faz o menor sentido na moldura da relação pai-filho, especialmente quando o que está em jogo é perdão. Como tentei defender ontem, o perdão do pai que ama seu filho já está dado antes que ele o peça. É incondicional, independe de qualquer ato anterior dele.

Paulo parece concordar comigo. Em dois momentos (Efésios 4:32 e Colossences 3:13) ele insta com os cristãos para que pratiquem o perdão porque já foram perdoados eles também. Ou seja, o perdão divino, para Paulo, é anterior ao perdão entre homens. Não apenas isso, mas o perdão divino é o verdadeiro impulsionador, é o princípio, é o que torna possível o perdão entre homens.

Vejo na preocupação de Jesus em colocar a questão do perdão no nível “horizontal” dentro da Sua oração modelo uma derramada súplica para que Sua igreja fizesse justamente o que não está mostrando ser capaz de fazer hoje: multiplicar o perdão que recebeu. Essa mesma preocupação Ele transformou em parábola quando contou do grande devedor perdoado que não conseguia ele próprio perdoar a dívida muito menor do outro. Se a igreja fosse capaz de perdoar aos seus “devedores”, estaria de braços e sorrisos abertos a pessoas diferentes do padrão (moral, racial ou simplesmente estético) que ela prega, sem falar na nova dimensão que o relacionamento entre os próprios membros da igreja teria.

Penso que é justamente porque os cristãos não se sentiram verdadeiramente perdoados, ou não perceberam a imensidão da amplitude desse amor, que não sabem ser multiplicadores da graça. “O amor de Cristo nos constrange”, disse o mesmo Paulo (II Coríntios 5:14). Se você e eu não nos sentimos constrangidos a enxergar o outro de forma diferente – de forma inclusiva, perdoadora, tolerante e com amor – é porque não conhecemos o amor de Cristo.

Pois bem, a oração não é uma barganha. É uma conversa franca, aberta, entre pessoas que se amam, sendo que uma delas deveria sentir nessa aproximação uma inesgotável gratidão em resposta a um inesgotável amor. Apenas pressentindo a imensidão desse amor, a oração é o ficar perto dele, para que nos molde, nos transforme. Para que constranja no que tiver que constranger e inspire o que tiver que inspirar. Um amor que nos faça mais parecidos com Ele mesmo a cada instante. 

Sem analgésico


Assistindo à cobertura da Olimpíada de Londres, é engraçado ver como as pessoas se sentem desconfortáveis vendo nossos atletas que fracassam chorar. Muita gente trata essa manifestação de dor, decepção e sofrimento como um corpo estranho. Acho que isso está relacionado ao fato de que pouca coisa é tão amada por nossa geração quanto o analgésico. Criou-se pela primeira vez na História uma geração inteira que absolutamente não sabe sentir dor e é capaz de enlouquecer quando ela chega. Para um ambiente assim, fica cada vez mais difícil seguir o Deus bíblico.Afinal, “no mundo tereis aflições” (João 16:33) é uma assertiva absolutamente incondicional.

Na última semana comentei aqui que Jesus rumou para Jerusalém absolutamente certo do que iria acontecer e nada, nem vitória nem derrota, nem satisfação nem decepção, foi capaz de tirá-lo da estrada que O levaria a cumprir a vontade de Seu Pai, por sacrificante que Lhe fosse. Bem, mas é verdade também que Ele levou Seus discípulos consigo. Ele levou os discípulos para testemunharem tudo. Como disse Oswald Chambers, Deus guiou os discípulos até o local onde eles teriam seus corações partidos.

Em As Crônicas de Nárnia, o épico de fantasia que C. S. Lewis escreveu para introduzir a fé cristã para as crianças, Aslam, o leão que é um tipo de Jesus Cristo, ruma solitário para o sacrifício, escapando furtivamente do acampamento de seu exército; apenas as meninas Lúcia e Susana assistem à cena, porque o seguem. Bem, Jesus fez diferente. Ele levou os onze, pediu que permanecessem alertas, com os olhos bem abertos para ver tudo o que aconteceria e então foi aprisionado, espancado, ridicularizado, injustiçado, torturado e morto bem na sua frente. O que se seguiu foi desorientação, perplexidade e uma tristeza com a qual não tinham ferramentas para lidar. A seco. Sem analgésico.

O coração partido daqueles onze homens e das mulheres que os acompanhavam foi o estopim da transformação que Deus operou neles.

Mas por quê? Haveria outra maneira? Conhecendo a Deus, vendo o traço de caráter que Ele revela justamente naquela cruz, sabemos que, houvesse outra maneira, Ele a teria empregado. Por causa de nossa natureza pecaminosa, sempre desatenta à verdade por estar muito focada no que gostaria que a realidade fosse, não havia outro método. Sabemos também que Deus não obra o mal, mas não temos razões para ignorar que pode haver situações em que Deus nos conduzirá ao local onde teremos nosso coração despedaçado. Ele está olhando mais à frente e moldando a pessoa que não queremos, mas que precisamos ser.

Deus não poupou Seus amigos queridos das cruéis cenas de Sua paixão porque entre poupar a dor e vê-los salvos, Ele preferiu a segunda opção. Em algum momento pode ser que aconteça o mesmo com você e comigo. Sua reação a isso depende do grau de confiança que você depositar sobre Ele hoje.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O modelo (parte 8)


E perdoa-nos as nossas dívidas...
Mateus 6:12

O que é oração? Eu já li artigos e até livros inteiros sobre ela, mas não encontro na Bíblia nenhum compêndio teórico ou nenhuma digressão teológica sobre oração. Por isso, para entender qual a sua finalidade exata eu preciso olhar para as que estão registradas na Bíblia, de preferência a oração modelo, que Jesus ditou no monte, e pensar.

É nessa busca que volto ainda outra vez à palavra “Pai”, lá do início da oração, para só então pensar um pouco na razão pela qual Jesus incluiu na oração modelo um pedido por perdão. Ajustando didaticamente a relação do ser humano com Deus na moldura da relação pai-filho, Jesus me faz enxergar o pleito por perdão de forma bem diferente do que seria numa outra relação qualquer.

Eu descobri o que é perdoar um filho e antes disso não fazia nem uma pálida ideia do sentimento envolvido nisso. A verdade é que, a rigor, meu filho não precisaria pedir perdão para recebê-lo. Ele não corre jamais o risco de ser deserdado ou de eu passar a amá-lo menos. Sei que embora isso aconteça algumas vezes por aí, não dá para conceber a ideia de um pai que passa tempo com seu filho, que se debruça sobre ele e faz questão de acompanhar o mínimo progresso cogite a hipótese de desprezá-lo.

Mesmo assim, eu muitas vezes insisto com meu filho para que peça perdão. Sinto quase instintivamente que ele precisa disso para crescer. Precisa entender que alguns de seus atos ofendem, mas mais que isso: precisa ter a oportunidade de assegurar-se de que continua amado.

Vejo muitas relações familiares onde não se pronuncia a palavra perdão nem jamais se pede desculpa. Parte-se do pressuposto do amor incondicional e aí fica a impressão de que o pedido de perdão seria uma mera formalidade. Invariavelmente, contudo, nessas relações encontro uma série de assuntos mal resolvidos, sujeira sob o tapete e cicatrizes mal fechadas.

Todos nós temos dívidas e não podemos ser tudo o que fomos “projetados” pra ser sem a certeza do perdão. O perdão tem efeitos terapêuticos óbvios (a expressão aliviada de meu filho ao ser perdoado não me deixa mentir): liberta, estimula, impulsiona para a frente, gera crescimento. O perdão é, em suma, essencialmente divino.

Portanto, ao analisar a oração modelo, chego à conclusão de que não preciso pedir perdão para convencer Deus a me perdoar. Ele é Pai, não precisa ser convencido de nada, Ele quer o meu melhor sempre! Então, Jesus fez questão de incluir o clamor por perdão na oração modelo para certificar-Se de que não mais seríamos limitados pela culpa. “Peça perdão para ouvir que está perdoado. Você precisa disso e eu não quero negar nada do que você precisa”.