sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Diferente

Escravidão. Uma das piores formas de violência. Um escravo não tem amor próprio, não lhe é permitido fazer a mínima escolha a respeito de sua própria vida. A escravidão mostra da forma mais explícita o supremo desejo humano: pisar o pescoço de um semelhante e dizer-lhe o que fazer, subjugar o outro e fazê-lo atender aos seus desejos e necessidades. A escravidão é o egoísmo humano em sua forma mais brutal.

O povo de Deus sentiu o gosto amargo da escravidão muito cedo. Os egípcios se transformaram de ótimos anfitriões em senhores de escravos. Mais tarde vemos o mesmo povo escravo de novo, em Babilônia, mas sabemos que isso aconteceu como consequência dos repetidos pecados: da rejeição dos profetas que apontavam o caminho certo, da insistência em adorar a ídolos e da adoção dos hediondos costumes pagãos. Mas por que razão foram escravizados pelo Egito? A Bíblia não aponta algo que eles tenham feito para receber a escravidão como punição ou consequência.

Fiquei com essa dúvida muito tempo, até que a leitura da história de Salomão me apontou uma sugestão interessante de resposta. Sabemos que o reino de Salomão era tão rico que a prata se tornou “tão comum como
as pedras” (I Reis 10:27). Riqueza e o temor dos povos vizinhos, que lhe garantiu paz. O que o rei rico e em paz fez? Construiu obras magníficas. Um templo, um palácio, os muros de Jerusalém e outras tantas obras. Mas como ele fez isso? Ora, com escravos.

A forma corrente de fazer as coisas era assim. Fora assim que os faraós egípcios haviam construído aquelas coisas fantásticas que até hoje nos encantam. Era natural recorrer aos escravos. O problema é que não há nada mais repulsivo para Deus do que o desejo humano de subjugação do semelhante. Ele havia colocado Seu povo ali naquele lugar geograficamente privilegiado para ser uma benção para as nações, e não para ser uma nação como todas as outras. Uma nação que, quando tem uma oportunidade, pisa o pescoço do vizinho.

Talvez os hebreus tenham sido escravizados no Egito e sentido o peso do chicote nos lombos para, quando chegasse a hora, eles fazerem diferente. Mas eles fizeram igualzinho. Eles tinham prata como pedras,
poderiam haver pago os trabalhadores. Mas eles fizeram aquilo que parecia normal fazer.

Jesus Cristo veio e fez diferente. Ao invés de fazer descer fogo do Céu, ofereceu a outra face. Ao invés de forçar uma adoração calcada no medo, abaixou-Se, tocou as feridas, olhou nos olhos e, abrindo mão do próprio conforto, serviu.

Você decerto tem muitas razoáveis justificativas para agir do jeito que todo mundo age. Jesus aponta à cruz e diz que não pagou a sua pena para você ser medíocre, ser igualzinho todo mundo. Ele quer que você vá e faça diferente.

Feliz sábado, @migos!

Marco Aurelio Brasil, 25/02/2011

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Visões de futuro

Quando pensamos na palavra profecia geralmente vêm à nossa mente visões estranhas sobre o fim do mundo ou sobre um futuro distante. Na Bíblia, contudo, profecia é qualquer mensagem vinda da parte de Deus. As Escrituras estão coalhadas de relatos de previsões do futuro mas em geral se trata de assuntos imediatos, coisas que aconteceriam naquela mesma geração ou num futuro próximo, como a pregação de Jonas para Nínive, que antecipava algo que aconteceria dali a quarenta dias apenas.

É curioso notar que nos anos de ouro de Israel não tenha existido nenhum profeta muito proeminente. Lemos sobre Natã, mas só o vemos atuar em um assunto imediato, fazendo o rei Davi se dar conta do tamanho do pecado que havia cometido com Bate Seba e Urias. Vemos o ainda jovem e recém ungido rei Saul profetizando, mas aparentemente não havia nenhuma visão de futuro distante ali e o mesmo acontece na atuação de Samuel.

É quando a coisa começou a degringolar que os profetas aparecem com maior presença. A maioria dos que deixaram registros que hoje integram a Bíblia apontavam para um tempo em que o povo de Israel seria dominado por um povo estrangeiro e viveria no exílio. Esta, diziam eles, seria a consequência da desobediência e da adoração dividida (uma vela para Deus e outra para os ídolos cananitas).

Bem, esse dia chegou. Primeiro para Israel, pela mão dos assírios, e depois para Judá, pela mão dos babilônios. É durante os dias desse primeiro evento terrível que aparece um tipo ainda desconhecido de profeta: Isaías começa a prever coisas num futuro muito mais distante. Isaías é quem praticamente inaugura a figura dos profetas conforme a ideia que as pessoas hoje têm. Ele fala da vinda do Messias e aponta para um ponto muito além no futuro, onde Deus criaria “novos céus e nova terra” (66:17).

Mas é durante o exílio dos judeus em Babilônia que aparece o maior de todos os profetas apocalípticos (forma como os teólogos designam esse tipo raro de profeta): Daniel. Todas as profecias dos demais profetas haviam se cumprido, já. O povo escolhido por Deus estava humilhado, reduzido a um remanescente insignificante, com a autoestima quebrada, tão destruída quanto o templo e os muros da sua adorada Jerusalém, sendo obrigados a servir um povo pagão. É só nesse contexto que Deus abre a cortina do que aconteceria ao mundo até o seu final. Ele mostra a Daniel que Babilônia seria sucedida pelos persas na hegemonia da mesopotâmia, e que os persas seriam suplantados pelos gregos; descreve com detalhes o reinado dos romanos, mostra a transmutação desse reino para a igreja católica, dá um vislumbre na situação geral do mundo depois disso e enfim mostra Jesus Cristo voltando à Terra em glória e majestade para colocar fim ao império do pecado e inaugurar um Reino que jamais passará (leia Daniel 2 para mais detalhes).

Não é curioso que é só quando o povo de Deus atinge o fundo do poço que Ele lhes revela a razão e a fonte de sua maior esperança? Será que isso não é por acaso? Será que, quando as coisas vão bem, uma visão de glória resplendente não parece tão resplendente assim? Será que menosprezamos o ideal de felicidade divino quando temos uma imitação barata dele vendida aqui mesmo? Será que nossa capacidade de olhar mais além e mais longe se enfraquece quando estamos confortáveis e descansados?

Responda você.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Para que se prolonguem os teus dias

Qual é a frase que você mais ouviu na infância? O que você gostaria de dizer aos seus pais e nunca disse? Perguntas delicadas, não?

O quinto mandamento diz que devemos honrar o pai e a mãe. Curiosamente, é o único dos dez que vem acompanhado de uma promessa: “para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá” (Êxodo 20:12). A leitura tradicional desse mandamento vê nele a imposição de um comportamento baseado em uma hierarquia indiscutível; pais e mães têm prevalência e precisam ser honrados pelos filhos porque Deus disse que assim tem que ser e ponto final. Mas, se é assim, qual seria a relação do mandamento com a promessa embutida nele?

Salomão escreveu que “O coração alegre serve de bom remédio; mas o espírito abatido seca os ossos” (Provérbios 17:22). Ou seja, a mágoa e o ressentimento minam a energia vital, nos fazem murchar e secar. Poderíamos dizer que a mágoa e o ressentimento encurtam os dias que temos, interferem negativamente em nossa longevidade.

Talvez, então, eu não estivesse lendo o 5º mandamento da forma correta. Se a atitude de honrar o pai e a mãe é uma ferramenta para o prolongamento dos dias do filho, a razão de ser do mandamento pode estar na proteção desse contra os muitos traumas que comumente florescem da conturbada relação de pais e filhos. Não se trata, assim, da formação de uma hierarquia para benefício dos pais, mas de uma estratégia terapêutica para os filhos.

A responsabilidade de ser pai é avassaladora e a verdade é que nem sempre se acerta a mão. Os pais são as figuras mais importantes na mais importante das fases da vida, quando se delineia o caráter e a personalidade de cada criança. Como somos naturalmente falhos e imperfeitos, daí decorre uma série interminável de traumas e bloqueios psicológicos que muita gente carrega pelo resto da vida. Por isso é comum haver desconforto e até explosões emocionais quando perguntados sobre a frase mais comum da infância ou o que diríamos aos pais ou qualquer outra coisa do gênero.

Honrar pressupõe perdoar e respeitar. Se você tem cicatrizes e barreiras construídas em seu peito há muito, muito tempo, saiba que Deus não está sugerindo apenas; ele está mandando que você perdoe, que honre. Porque Ele quer que você viva mais e melhor.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A terceira alternativa

E aqui estamos nós mais uma vez, pasmos com o que a televisão nos mostra, sem palavras ante a violência do que nossos olhos vêem. O rio e a montanha atravessam casas, derrubam prédios, soterram famílias inteiras. Nós estamos um pouco anestesiados contra a dor alheia, que visita nossos lares através dos noticiários todo santo dia, mas a tragédia na zona serrana do Rio é mais um chacoalhão para nos sensibilizar quanto ao sofrimento de nosso semelhante. E, claro, para nos lembrar que somos seres muito vulneráveis.

No dia 20/07/2007 eu escrevi aqui a pretexto do acidente do avião da TAM no aeroporto de Congonhas. Eu peguei aquele mesmo vôo no dia seguinte, então o sofrimento das famílias enlutadas me era especialmente sensível, porque por um detalhe de agenda poderia ser eu lá. Eu refletia que, quando coisas assim acontecem e somos lembrados de forma violenta de nossa fragilidade e do tanto de coisas externas a nós de que somos dependentes para continuarmos tocando nossa vida, temos três alternativas: nos desesperar e viver ansiosos é a primeira e talvez a mais comum.

Mas talvez você não ache essa uma boa opção. Bem, para não ser um desesperado, com medo até da sombra, vivendo de forma intranquila e nada saudável, você tem as outras duas opções: a primeira é que você pode ser um otimista. O otimismo tem a ver com temperamento com um esforço de autossugestão. Você fica repetindo para si mesmo que tudo vai acabar bem. Os livros de autoajuda adoram essa saída.

Particularmente eu prefiro a terceira: você pode ter esperança. Esperança não tem nada a ver com temperamento nem com sugestionamento, mas com a confiança no autor de uma promessa. Nasce do relacionamento com alguém que prova ser confiável.

Jesus Cristo disse que teríamos muitas aflições enquanto o pecado é a ordem do dia nesta Terra. Disse também que esse tipo de evento se multiplicaria quando estivesse próximo Seu retorno, em gravidade e em frequência, como as dores de parto. Mas a última coisa que Ele disse é que um dia o pecado seria defenestrado e no lugar haveria o tipo de mundo que Ele sonhou para nós. Uma realidade em que Ele “enxugará de nossos olhos toda lágrima”.

Olhando as cidades devastadas, cobertas de barro, as cenas de rios derrubando casas inteiras, os corpos em sacos plásticos pretos, pense nas três opções que você tem e considere com carinho a terceira. Caso você dê uma chance a Jesus e comece a passar tempo com Ele, vai experimentar o quão confiável Ele é. Você vai ter esperança na promessa. Você vai ter paz nesse nosso ambiente instável e vai viver feliz.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Holocausto

No monte do Sinai Moisés recebeu de Deus muito mais do que apenas as tábuas dos dez mandamentos; recebeu um sistema religioso inteiro. Esse sistema envolvia uma série de ritos, festas e sacrifícios que abrangiam celebrações e formas de adoração tanto individuais quanto coletivas e tanto episódicas quanto regulares e cotidianas. Dentre as formas de sacrifício que Deus instituiu, havia sacrifícios de cereais, sacrifícios pelo pecado, sacrifícios de gratidão e os holocaustos.

O nome hoje é sinônimo do genocídio de judeus e ciganos perpetrado pelos alemães na II Guerra Mundial, mas como era esse sacrifício para os israelitas? Bem, o holocausto é a primeira forma de sacrifício sobre a qual o Levítico fala. Há duas diferenças básicas do holocausto para os sacrifícios pelo pecado: a primeira, é que o animal trazido em sacrifício era totalmente queimado no holocausto. Na oferta pelo pecado, apenas algumas partes do animal eram queimadas no altar.

No holocausto o animal se consumia, portanto, integralmente. Suas porções nobres e suas partes mais impuras eram todas queimadas no fogo do altar, distante alguns metros do trono de Deus que estava no Santíssimo.

A outra diferença é que o holocausto não tem qualquer motivo indutor. O sacrifício pelo pecado era ofertado, claro, quando havia pecado; o holocausto não. Não havia uma razão específica para fazê-lo. O adorador fazia porque queria.

Assim como o holocausto, você entrega sua vida a Cristo porque quer. Ele “está à porta” e bate, Ele convida, mas cabe a você aceitar ou não. Nesse sentido, o holocausto me ensina que não faz sentido eu aceitar o convite, eu trazer o sacrifício, mas entregar apenas uma parte dele. Não faz sentido eu chegar até o altar e depositar nele dez minutos de meu tempo diário, mais, quem sabe, duas ou três horas de um dia específico da semana, mais talvez dez por cento da minha renda, algumas preferências de meu paladar e umas duas formas de lazer. Se Jesus tivesse feito algo assim, não teríamos sido salvos naquela cruz. Ele não entregou apenas parte de Si.

“Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração” (Jeremais 29:13). Todo.

Nunca seremos as novas criaturas que Ele sonhou se entregarmos apenas retalhos e fragmentos do que somos. Ele não poderá nos transformar se não votarmos nossa vida em holocausto completo perante Deus.

Que neste ano novo você permita que Deus tome cada mínima porção do que você é e do que você tem. E que sua vida suba como um cheiro suave para a eternidade afora.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Novos começos

O ano novo pela frente, com sua multidão de páginas em branco, convida a respirar fundo e recomeçar. Começos são sempre espinhosos, requerem adaptação e força de vontade, sem falar que muitas vezes os desafios que assumimos botam um medo terrível na gente.

Nessas horas é muito bom lembrar de Josué, meio assustado por ter sido guindado à posição de líder máximo da multidão israelita que marchava sobre Canaã, e das palavras de Deus a dizer-lhe, repetidas vezes, por entre toda a perplexidade do rapaz: "não temas. Sê forte e corajoso, porque Eu sou contigo". Não importa o tanto de bichos de sete cabeças que apareçam no seu novo começo, não há de haver desafio maior que o poder do Senhor para que você dele dê conta.

Podemos, sem qualquer medo de errar, perscrutar o horizonte incerto e sorrir confiantes. Não importa o tanto de novos começos que apareçam até que O vejamos; não importa sua complexidade, seus traumas e impasses; temos um Deus que nos convida a descansar em Sua divina Providência.

Não precisamos jamais temer novos começos. Ele mesmo, nosso Criador e Redentor, promete que o princípio de nossa felicidade suprema começa com isto, um novo começo, e o faz nessas magníficas palavras: "Faço novas todas as coisas" (Apocalipse 21:5). Que beleza! Tudo o que Ele quer é fazer um último e definitivo novo começo para nós, mas até lá nos há de guiar, capacitar, proteger e cuidar. Você costuma desconfiar da validade das promessas feitas por quem o ama? A promessa é sua, aproprie-se dela e toque em frente!

Neste recomeço, desligue o som do mundo e ouça a voz serena do Pai: "Esforça-te e tem bom ânimo; não te atemorizes, nem te espantes; porque o Senhor teu Deus está contigo por onde quer que andares." Josué 1:9.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Sim!

Então Calebe, fazendo calar o povo perante Moisés, disse: Subamos animosamente, e apoderemo-nos dela; porque bem poderemos prevalecer contra ela.
Números 13:30

O telefone tocou e do outro lado da linha alguém me chamando por um nome que ninguém usava havia uns dezesseis anos, fazendo mistério pra ver seu eu adivinhava quem era.

- Quem?! eu havia escutado certo: Robson Tatimoto. De que tumba ele teria saído? Estudei com ele até acho que a sétima série do fundamental e depois nunca mais havia ouvido falar dele. Disse que encontrou alguém daquele tempo longínquo e logo foram trocando informações sobre os colegas com quem mantinham ainda algum contato e a vontade de ver o povo foi crescendo e os contatos foram acrescentando pessoas e em cinco dias recebi ligações de uma porção de gente que até então era apenas uma lembrança amarelada num baú bem guardado. Fizeram uma página na Internet pra colocar fotos, começou uma corrente de e-mails nostálgicos e desse jeito eu fui mais uma vez transportado para os idos de 1986, 1987.

Pensar no assunto me liberou endorfinas suficientes para muitos dias. Relembrei rostos, vozes, fatos, músicas e sensações gratas. Entre tantas lembranças, contudo, veio a de uma dessas colegas que acabou coincidentemente, depois do intervalo do ensino médio, fazendo faculdade comigo. A gente nunca tinha sido muito próximo e no dia em que toquei no assunto de nosso passado em comum na frente de outros colegas da faculdade, ela se pôs a contar aos outros as exóticas normas da escola em que havíamos estudado. Enumerou milhões de "nãos", alguns dos quais eu nem lembrava mais. Falou da saia que tinha de usar, da proibição do uso de adornos, da ausência de carne na dieta, dos rígidos padrões morais, das aulas de religião e mais uma penca de coisas, tudo como se tivesse sobrevivido ao inferno.

Fiquei decepcionado e jamais voltei a tocar no assunto com ela. Diferentemente da impressão que lhe ficou, para mim eu não havia sobrevivido ao inferno, mas caído do Céu, depois que saí de lá. A porção de "nãos" para mim nunca havia disputado nem de longe com a multidão de "sins" que eu trazia do tempo das espinhas na cara. Cada nuance daquele tempo bom era para mim um sonoro e retumbante sim!

Fiquei muito feliz de perceber que a minha opinião é compartilhada por um monte dos colegas de então, mas não posso deixar de estranhar em como uma mesma situação, um mesmo contexto, pode ter ressonâncias tão distintas para pessoas que o viveram teoricamente nas mesmas condições.

Também isso aconteceu entre os doze espiões de Moisés que foram vasculhar Canaã. Dez viram uma terra inalcançável e dois, que enxergaram tudo pelo mesmo ângulo e nas mesmas, digamos, condições climáticas que os demais, viram algo facilmente conquistável mediante o poder do Deus que os tirara do Egito. A diferença, aí, estava no quanto esses dois conheciam ao Deus que ia com eles.

O que determina a diferença? O que faz com que as situações da vida sejam sim ou não para alguém, e para a pessoa do seu lado o perfeito oposto?

Fico pensando em como olharemos para o hoje daqui a algum tempo. Veremos "nãos" ou "sins"? Ora, o mesmo Deus que estava lá, atrás dos israelitas, empurrando-os para Canaã e o tranquilizando com Seu braço forte, o mesmo Deus que me cercou de coisas boas há dezesseis anos, sabendo que elas haveriam de ser preciosas na dura caminhada que eu ainda nem desconfiava que assomava à minha frente, bom o mesmo Deus está agora dizendo coisinhas como "mas tu, meu amigo, não temas porque sou contigo, não te assombres porque eu sou teu Deus" (Isaías 41).

Voltei de 1987 não apenas cheio de endorfinas, mas também disposto a ver muitos "sins" no meu caminho de hoje. E graças a Deus eu os vi! E você, o que vê?

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A pirâmide

Como foi sua alimentação este ano? Você conhece o ditado: você é o que você come, e talvez você conheça também a pirâmide alimentar, aquela representação gráfica que coloca na base do triângulo pães, cereais e carboidratos e lá na pontinha dele açúcares e gorduras, indicando que a alimentação tem que ser aqueles como regra e estes como exceção. A proporção dos alimentos que você comeu este ano foi saudável?

Para além da dica de resolução de ano novo (“em 2011, vou me alimentar melhor!”), minha intenção é lembrá-lo que Jesus Cristo afirmou ser “o pão da vida” (João 6:35). Ele sabe que você é o que você come e por isso Ele se identificou com o alimento mais trivial e básico que existe, aquele que comemos todos os dias.

No começo do século passado, Oswald de Andrade e outros intelectuais paulistas assinaram o “Manifesto Antropofágico”, um libelo artístico e literário que enaltecia o espírito criativo humano e convocava a todos que alimentassem seu espírito com os frutos da verve de outros homens. Não é exatamente o que temos feito? De que alimentamos nosso espírito? O que comemos todos os dias? Mais que isso: nossos valores e princípios, a forma como entendemos o mundo e aquilo que reputamos como verdade e como conhecimento, são fruto de quem? De Deus ou dos homens?

Alguns cristãos pregam que só devemos comer pão, que tudo o que pessoas que não temem a Deus fazem não presta e não devemos “comer”, mas esse me parece outro extremo nada saudável. Paulo conhecia as obras dos pensadores de seu tempo e Deus sempre nos inspirou através das formas artísticas conhecidas. Deus ama a poesia, a pintura, a música e a literatura e não poderia ser diferente, já que a criação de Suas mãos exala uma arte superior por cada mínimo poro.

Acontece que Ele é pão e as obras dos homens são açúcar. Um é regra, o outro é exceção. Um é para ser comido todos os dias em quantidades generosas, o outro não é essencial.

Em 2011, garanta o essencial.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O sábio e o esperto

Costumamos dizer que Salomão foi o homem mais sábio que já existiu. Bem, o tal “homem mais sábio que já existiu” realmente conhecia muito de botânica, biologia e astronomia, conseguia decifrar enigmas complicados e tinha habilidade em julgamentos para desmascarar a mentira – como vimos no caso das duas mulheres que disputavam a maternidade de um bebê - mas isso tudo é sabedoria?

Quando Deus lhe perguntou o que ele queria ganhar, Salomão pediu “um coração cheio de discernimento para governar o teu povo e capaz de distinguir entre o bem e o mal” (I Reis 3:9). Por outras palavras, Salomão pediu para ser esperto, e não apenas um jovem inexperiente. A resposta de Deus foi: “eu lhe darei um coração sábio e capaz de discernir” (verso 12). Deus acrescentou não apenas riquezas e poder ao pedido de Salomão, mas sabedoria propriamente dita.

O que ele fez com ela, contudo? Depois que Salomão construiu o templo, I Reis 9 diz que Deus lhe apareceu e lembrou que a promessa de proteção e cuidado sobre ele e seus descendentes dependia da obediência dele aos estatutos divinos. Falta de aviso, portanto, não foi, porque dois capítulos adiante somos informados que Salomão tomou 700 mulheres e 300 concubinas; “elas eram das nações a respeito das quais o Senhor tinha dito aos israelitas ‘vocês não poderão tomar mulheres dentre essas nações...” “À medida que Salomão foi envelhecendo, suas mulheres o induziram a voltar-se para outros deuses, e o seu coração já não era totalmente dedicado ao Senhor, o seu Deus.” (11:2 e 4).

Casar-se com princesas era uma ótima forma de garantir a paz entre as nações, e permitir que essas princesas conservassem sua cultura era certamente a forma mais fácil de mantê-las satisfeitas. Isso era mera esperteza, não era sabedoria. Afinal de contas, o “homem mais sábio que já existiu” escreveu que “o temor do Senhor é o princípio do conhecimento” (Provérbios 1:7). O discernimento sem temor do Senhor é mera esperteza. Salomão só foi sábio enquanto ouviu mais aos conselhos divinos do que às conveniências políticas.

É difícil reconhecer a verdadeira sabedoria entre seus genéricos disfarçados. Como saber o que é sabedoria, de fato, e o que é mera esperteza? Bem, Paulo dá uma ótima dica: “Porque desde criança você conhece as Sagradas Letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus” (II Timóteo 3:15).

Sabedoria de fato é aquela que opera a salvação, e o princípio dela é o temor do Senhor. O resto engana bem, mas não é sabedoria.

Feliz sábado, @migos!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O terror e a gratidão

A semana começou com uma cena histórica: homens das forças policiais e militares hasteando uma bandeira brasileira no alto do complexo de favelas do Alemão, no Rio de Janeiro. Para todo mundo nascido desde a década de 70, a existência de bolsões onde o Estado não existe (lugares onde a ordem é mantida por um código de valores e por leis totalmente diferentes dos que vigoram no restante da sociedade organizada) é algo natural, faz parte da paisagem. O que possibilitou a existência dessas zonas cinzentas foi uma conjugação de alguns fatores: a geografia carioca, que torna os morros inexpugnáveis e que mistura favela com as outras partes da cidade em todas as suas zonas, o descaso histórico do Estado pela população humilde que foi obrigada
a subir os morros para encontrar onde morar e a estratégia de dominação dos traficantes.

Os traficantes escolheram o caminho mais curto para garantir o exercício do poder nos seus feudos: uma mistura de terror com assistencialismo. De um lado, invadem casas, espancam, torturam, ostentam seus fuzis e metralhadoras livremente, ameaçam e matam sem pestanejar. De outro, cuidam da segurança dos habitantes da favela,
coíbem o roubo em seus domínios, exercem uma justiça paralela, distribuem presentes, trocam favores. Com isso, garantem uma fórmula infalível para ganhar respeito e obediência, manejando com uma mão o medo e com outra a gratidão.

Quando as tropas subiram o morro, contudo, viu-se que terror e gratidão, embora garantidores de obediência e servilismo instantâneos, constituem uma motivação frágil para isso. Traficantes presos foram insultados abertamente por parte da população e uma enxurrada de denúncias anônimas por telefone vinda de moradores do bairro apontou esconderijos e rotas de fuga dos marginais. Moradores aliviados foram
entrevistados.

Conhecemos bem o caminho mais fácil para a obediência. O mesmo não se pode dizer do caminho mais difícil, aquele que Jesus trilhou. Jesus sabe que a obediência que nasce do medo é precária e corrompida. “No amor não há medo, antes o perfeito amor lança fora o medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor“ (I João 4:18). Jesus sabe também que a obediência por simples
gratidão também não é suficiente. A gratidão é imprescindível para nossa sanidade mental, mas não é ainda o motivo correto para a obediência. Só o amor é.

Por isso é que Jesus não carrega nas cores quando fala do juízo. Ele não fica esfregando fogo e enxofre na nossa cara. Quando fala do juízo, algo que é real e que está acontecendo e que, portanto, sobre o qual seria falta de amor calar, ele enfatiza a vitória que será para os que forem aprovados. Por isso também é que Jesus não compra nossa obediência com dinheiro e saúde como os adeptos da teologia da prosperidade advogam. Em lugar disso Ele nos ama, nos pega nos braços, nos aquece, nos consola, nos dá esperança. Amor gera amor e a obediência e o respeito que nascem do amor são indestrutíveis.

Por um caminho mil vezes mais difícil do que aquele que nós escolheríamos Ele subiu e cravou sua bandeira em nosso coração. Louvado seja.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A qualquer momento

Você provavelmente tem um amigo que nunca falha. Alguém que sempre
cumpre seus compromissos, que não dá furos e que já deu mostras
indiscutíveis de que você é importante para ele. Imagine que ele marca
de encontrar você em um determinado lugar e você está lá esperando;
qual é seu estado de espírito? Você fica pensando se ele vem mesmo ou
a persepectiva da falha dele nem lhe passa pela cabeça?

Bem, para quem O conheceu, Jesus Cristo é exatamente assim. As
promessas que fez já se cumpriram todas, menos uma. O simples fato de
haver tomado nossa forma, de haver devotado uma vida inteira para nos
salvar e de Se ter deixado matar daquela forma ignominiosa já seriam
evidências óbvias de que somos o que há de mais importante para Ele,
mas, como se não bastasse, Ele prova seu amor a cada dia pelo jeito
que encaminha nossa vida. Estamos aqui, esperando o cumprimento de Sua
última promessa, aquela que Ele repete centenas de vezes em Sua
Palavra. Não há porque descrer, não há margem para desconfiança: Ele
vem. Ele vai voltar. Deus não deixará o atual estado de coisas, que
nos é amplamente desfavorável, persistir indefinidamente. Cristo está
voltando para completar o que começou.


Os sinais que Ele deu de Sua vinda têm se cumprido com incrível
precisão, mas parece que o sinal definitivo é o que Ele registra em
Mateus 24:14: “E este evangelho do Reino será pregado a toda língua,
tribo e povo, em testemunho a todos as gentes, então virá o fim”.
Muito bem, para que essa situação de morros tomados por traficantes,
balas perdidas, doenças incuráveis, doenças crônicas, doenças
congênitas, confusão moral, corrupção, desavenças, sonhos frustrados,
solidão, tragédias naturais, dor, morte e tudo o que Ele não planejou
nem quis para nós tenha fim, sabemos o que deve acontecer. O que? Uma
pregação. Do que? Do evangelho do reino, ou seja, da mensagem de que
Jesus resolveu nosso maior problema ao morrer em nosso lugar naquela
cruz. A quem? A toda tribo deste mundo. Para que? Para que venha o
fim.


Sabemos o “o quê”, sabemos o “do quê”, sabemos o “a quem” e o “para
que”, mas pode ser que estejamos desprezando outro elemento que esse
texto nos dá: o “como”. O evangelho do Reino é pregado ao mundo todo
não de qualquer jeito; ele é pregado em testemunho. Por outras
palavras, são testemunhas do evangelho que o pregam, ou melhor, que o
vivem perante toda nação, tribo, lingua e povo. Não adianta
terceirizar esse trabalho para os anjos, ou para os livros ou para a
Internet ou a televisão. A fim de que o mundo todo saiba que Jesus
Cristo é o caminho e a saída, é necessário que você e eu o vivamos.
Só assim a mensagem de que Ele está por chegar se reveste de
credibilidade irresistível.


Não se trata, portanto, de enumerar as razões porque sabemos que Ele
está voltando, mas fazer isso e viver uma vida condizente com o fato.
Então virá o fim.


Deus acelererá essa obra quando entender que chegou a hora: “Pois o
Senhor executará a sua palavra sobre a terra, consumando-a e
abreviando-a” (Romanos 9:28). “Eu, o Senhor, apressarei isso a seu
tempo” (Isaías 60:22). E, para tanto, vai contar com pessoas dispostas
a viver como quem tem certeza de que esse Amigo vai chegar a qualquer
momento.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O barato que sai caro

Arnaldo Baptista era um pequeno gênio musical. Excelente pianista, compunha e arranjava músicas com uma sofisticação que os entendidos até hoje comparam às de gênios bem mais renomados. Sua criatividade era tanta que grande parte dos brasileiros não a compreendia. Mesmo assim, sua banda, Os Mutantes, gozava de uma grande popularidade na virada dos anos 60 para os 70; era casado com Rita Lee e em plena ditadura militar tinha uma liberdade criativa e uma produção espetaculares. Até que o LSD entrou na parada.

Nisso, a história de Arnaldo Baptista não difere muito de outras tantas. O clima de revolução cultural vivido por sua geração era ditado e colorido pelas drogas, em especial o LSD. A impressão geral era de que o ácido abria as portas para um novo nível de compreensão, o despertar de uma nova consciência. Para Arnaldo muito nitidamente essa nova consciência foi o princípio de um longo e tenebroso declive. Rita Lee o deixou, sua musicalidade se tornou mais esquisita, sua alegria - grande marca de sua personalidade - desapareceu. Na sequência foi internado algumas vezes em hospitais psiquiátricos até que tentou suicídio atirando-se do 4º andar de um deles. Passou dois meses em coma, mas nunca se recuperou completamente. Passou quase duas décadas em um relativo ostracismo, embora tenha entrado em sua vida uma mulher devotada que praticamente salvou-lhe a vida.

Assistindo a um documentário sobre essa história toda, a questão que me ocorria sempre era: alguns instantes de uma sensação de liberdade intensa e de êxtase dos sentidos valem o preço que eles cobram? Para muita gente a resposta é sim. Evitar a experiência para ter os neurônios intactos seria o equivalente a deixar de viver. Viver, dizem eles, é isso. Andar no limite. Correr perigo.

Para os ex-companheiros de Mutantes ouvidos no documentário, contudo, o saldo é francamente negativo. Nota-se um certo receio de parecerem caretas ao falar do assunto, mas eles são praticamente unânimes em afirmar que eles eram melhores antes da droga do que durante; depois dela, então, nem se fale. O êxtase não valeu a pena. Viver, segundo o conceito que tinham então, não valeu a pena.

Bem, mas o que significa “viver” é uma das grandes questões da humanidade. Há dúzias, talvez centenas de ideias díspares sobre o que é isso. Eu, particularmente, gosto da ideia que meu Criador faz de vida. “Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância”, disse Ele (João 10:10). E, na vida que Ele recomenda, não há muito lugar para êxtases e arrebatamentos dos sentidos. As pequenas alegrias (pequenas ao menos na comparação com alegria bombástica do barato da droga), entremeadas com as tristezas e preocupações do cotidiano, tudo isso emoldurado pela confiança em Deus e pela esperança que daí provém, essa é a ideia de vida que Ele recomenda. Vida abundante.

Você e eu não precisamos do despertar de uma nova consciência. Precisamos simplesmente aplicar essa que temos à realidade de Deus à nossa volta. Ou, como diz Paulo: Rogo-vos pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional (Romanos 12:1).

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A mulher virtuosa

O filósofo André Comte-Sponville escreveu um interessante “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” defendendo que, mesmo neste mundo pós-moderno, ainda há espaço para a virtude. Mais que isso, é urgente enaltecê-la, porque ela tem um papel fundamental em nossa realização como seres humanos.

Seu primeiro capítulo enfoca a polidez - que é uma quase-virtude; ainda não é uma virtude, porque ela pode existir sem qualquer lastro no caráter da pessoa – e termina com o amor, que já não é mais uma simples virtude, é algo bem maior que isso. Entre uma e outro, ele discorre sobre virtudes como a justiça, a fidelidade, a prudência, a temperança e a coragem, entre outras.

Salomão, que teve cerca de mil mulheres, perguntou: “Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas jóias” (Provérbios 31:10). O velho e sábio rei tinha entendido que a qualidade é muito superior à quantidade. Também havia entendido que a qualidade é coisa rara, raríssima.

Não acredito que esteja distorcendo a ideia de Paulo ao afirmar que aquilo que ele diz sobre “procurar os melhores dons” (I Coríntios 12:31) vale também para virtudes, mesmo porque, logo após dizer isso ele introduz o belíssimo elogio do amor que está no capítulo 13.

Conhecer as virtudes deveria nos incitar o desejo de persegui-las até incorporá-las. E, como diz Comte-Sponville, “se a virtude pode ser ensinada, como creio, é mais pelo exemplo do que pelos livros”. A melhor forma de “perseguir as melhores virtudes” é vivendo perto de pessoas virtuosas e perto dAquele que é a origem e o fim de toda virtude, Aquele que enfeixa em Si a realização absoluta de todas elas, Deus.

Nesse sentido, sou realmente um felizardo. Conheço a Deus e, quando a coisa se torna muito teórica demais (como eu às vezes gosto, lamentavelmente), conheço também a minha esposa. Acho que uma resposta válida para a pergunta de Salomão (“...quem a achará?”) seja eu – meu nome.

Há mil razões para isso. É porque ela tem o dom de pacificar as relações das pessoas ao seu redor; é porque ela é rápida em perdoar – embora às vezes diga que não; é porque ela tem uma preocupação genuína pelas pessoas que cruzam seu caminho, tem uma empatia que eu invejo muito; é porque ela tem uma meia dúzia de “melhores amigas” sem hierarquia alguma entre elas e é capaz de ter dezenas de outros
amigos; é porque ela tem uma inteligência rara para relacionamentos, capaz de fazer com que perfeitos estranhos sintam-se como amigos de infância com ela em pouquíssimos instantes e que muita gente queira estar perto; é porque tudo em que ela se envolve se faz bem sucedido: ela tem uma competência que só demonstra quem é imbuído da mais cristalina boa fé, aquela que faz com que alguém realmente queira, com todas as forças, fazer o melhor. Não, não é só isso. Ela tem a competência ditada pela boa fé de alguém que percebe a importância do que faz e que entende o quadro todo, entende a repercussão de seus mínimos atos no resultado final e que sabe que esse resultado final é o bem estar de outros; é porque ela mostra por atos e palavras que suas prioridades são adequadas, sendo que a família está no topo da
lista e, assim, ela está constantemente disposta a sacrificar seu bem estar, seus interesses mais egoístas; é porque nisso tudo, e no resto, está a justiça, está a fidelidade, está a coragem, estão a prudência, a generosidade e, sobretudo, o amor; é porque, enfim, sei - aquele tipo de conhecimento que resiste a qualquer protesto contrário, que está enraizado no âmago do ser e de lá não sai por nada – sei que o
mundo precisa muito mais de pessoas como ela do que de pessoas como eu.

Na verdade, mostrei esse texto para ela e ela pediu para fazer uma retificação aqui. Ela disse que são pessoas como ela e como eu juntas que fazem a diferença. Gentileza também é uma virtude.

Às vezes, pensando nisso tudo, eu só pergunto a Deus por que esse negócio de aprender virtudes não podia ser mais rápido...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O certo e o errado

Muita gente boa acreditava, como hoje também, que Deus é do tipo “fiscal de comportamento”, sorrindo quando alguém agia certo independentemente de seus motivos para isso, e que franze o cenho e se ira quando alguém age errado. Para merecer o sorriso divino, basta agir do jeito certo, falar as palavras mágicas, vestir a roupa certa e ouvir a música certa. Aquelas pessoas, como tantas hoje, não conseguiam entender o sentimento que Deus tem quando alguém que estava longe dEle volta para Ele e não conseguiam entender por que razão Ele dedicava tanta atenção aos que estavam longe.

Para tentar explicar como as coisas realmente são, Jesus contou a história de um pai de dois filhos para quem o caçula chega e faz um pedido inopinado: pai, adianta a minha parte na herança que eu quero sair por aí e curtir a vida. No antigo Oriente, esse pedido equivalia a dizer: pai, eu preferia que você já estivesse morto. Mas o pai atende mesmo assim, respeita a liberdade de escolha do seu filho, vende algumas propriedades, ajunta o dinheiro e lá se vai o seu caçula, conhecer as delícias do mundo.

Você conhece a história e eu preciso resumi-la para caber nesses poucos parágrafos: ele gasta toda sua fortuna e de repente se vê numa situação de penúria, cuidando de porcos e tentando comer um pouco da ração deles, uma coisa abominável para um judeu, para quem o porco é um animal imundo. Ele então volta, disposto a mendigar um lugar de empregado na casa do pai. O pai estava fazendo aquilo que fazia todos os dias desde que o filho partira: estava espreitando a estrada, na esperança de ver o filho querido voltar. Quanto tempo gasto nessa expectativa! Então acontece o segundo fato estranho para aquela sociedade patriarcal do antigo Oriente: o pai corre ao encontro do filho. Senhores de vastos domínios, como parece ser o caso do pai, nunca correm. Mas esse correu. Para abraçar o filho, colocar nele seu anel e ordenar uma festa.

Então entra na história o filho mais velho. Quando ele ouve os sons de festa na casa, chegando de um dia cansativo de trabalhar na propriedade do pai (a atitude certa, a roupa certa, a música certa) e é informado da razão de tanto barulho, ele se revolta. Aquilo simplesmente não era justo. Aquele seu irmão já tinha tido a recompensa pelas suas escolhas, tinha gasto parte da propriedade do pai provavelmente em prostitutas, não era justo que agora tivesse uma festa; ao passo que ele havia ficado ali e trabalhado tanto e tão duro (a atitude certa, as palavras mágicas...), sem nunca ter recebido festa nenhuma. Ele decide não entrar na casa. O pai vem e explica pra ele que não dá para fazer cara de paisagem quando um filho perdido, dado como morto, reaparece, renasce. E insiste comseu primogênito para entrar.

Nessa história, a casa do pai é o símbolo do lugar onde nada falta. Onde a fome não grassa, onde há de tudo o que precisamos. Aquele filho mais velho não havia sentido fome. Ele estava ali o tempo todo. Mas tinha um problema: ele se achava merecedor do lugar que ocupava naquela casa. Ele cometeu o erro terrível de achar que ficar na casa e comer do pão do pai tinha que ver com merecimento. Com agir do jeito certo, estar no lugar correto, falar as palavras certas.

A grande tragédia da história do filho pródigo é que, enquanto o filho que se humilhou e arrependeu a termina com o anel do pai no dedo e experimentando as delícias de uma festa inverossímil e muito além do que ele esperaria encontrar, o filho que age certo fica longe da casa do pai. Ele se nega a entrar. Seu sendo de justiça o afasta do lugar onde nada falta para todos a quem o pai ama.

Ficar na casa pelos motivos errados significa acabar a história fora dela. Querer merecer seu lugar ali é inútil. A atitude certa, a palavra certa, a roupa e a música certas, são aquelas que aprendemos imitando o pai ao contemplar, com olhos repletos de gratidão pelo pão de cada dia que Ele dá em sua mesa, como Ele age.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Mickey

Meu primogênito estava com dois anos e achamos que era hora de consultá-lo sobre o que gostaria de ganhar de natal. Quando perguntado, portanto, o que gostaria de ganhar do papai noel, ele, sem pensar muito, respondeu: “uma malinha do Mickey”. Coçamos a cabeça, confusos. Nem sabíamos que ele conhecia o Mickey e não fazíamos ideia de onde ele tinha visto a tal “malinha”.

Nos próximos dias repetimos a pergunta várias vezes para ver se era isso mesmo que ele queria e a resposta foi sempre a mesma. Começou então um grande movimento de caça a uma malinha do Mickey que envolveu avós e tias e durou longas semanas até que uma tia finalmente achou uma mochila do Mickey e garantiu o natal feliz do Dudu.

Na véspera do Natal, armou-se a maior expectativa para ver a reação dele ao ganhar o tão ansiado presente. Filmamos tudo. é nitida a frustração. Dudu olhou para a mochila recém saída do pacote com ar blasé, de um sorrisinho e voltou as atenções ao caminhão de plástico que tinha ganho da avó.

O mistério da malinha do Mickey nos acompanhou por um longo tempo, até que minha esposa matou a charada. Ela lembrou que em uma visita a um shopping onde havia precocemente um papai noel recebendo a criançada, o Dudu havia ganho dele uma balinha do Mickey. Quando perguntado o que ele ganharia do papai noel, a resposta óbvia para ele foi aquilo que ele já havia ganho dele. O que mais se poderia esperar? E ele não tinha culpa se não entendíamos balinha na sua língua enrolada...

A tragédia é que estávamos prontos para dar brinquedos sofisticados mas, por achar que o Papai Noel só podia dar mais do mesmo, ele ganhou uma malinha. Já era melhor que uma balinha, claro, mas nada se comparado ao que queríamos que ele pedisse.

Quando Samuel foi ungir o futuro rei de Israel, espantou-se de que Deus não havia escolhido nenhum dos filhos mais velhos de Jessé, que eram altos, fortes e bonitos. Deus havia escolhido Saul anteriormente, que era exatamente isso: alto, forte e bonito, então, essa era a ideia de rei que Samuel fazia. Mas Deus é ilimitado, tem recursos ilimitados e não precisa agir do mesmo jeito que agiu anteriormente. Enquanto Samuel esperava outro Saul, Deus gestava nada menos que um Davi.

É preciso humildade para reconhecer que não fazemos ideia do que Deus está planejando a nosso respeito. Precisamos reconhecer que pode ser algo radicalmente diferente daquilo que já recebemos dEle. Precisamos não esperar nada em especial para nos surpreender e maravilhar ao ver o que Ele fará.