sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Um método para mudar o mundo


Você pode dar de ombros dizendo que o mundo é assim mesmo ou pode fazer parte da igreja. A igreja é uma demonstração clara de que Deus não está conformado com o jeito como as coisas são. A igreja é um agente de mudanças. Pode até ser um mau agente de mudanças, pode ser até um agente ineficaz de mudanças muitas vezes, mas, desde seu princípio, é para isso que ela existe. As perguntas que nos ocorrem na sequência são: 1) quê mudanças a igreja deve promover no mundo? e 2) como ela consegue essas mudanças?

Bem, quanto à primeira pergunta, é bom considerar que a igreja age de forma bem diferente da política e da economia. Essas ciências buscam impor a mudança de forma coletiva, massificada, ao passo que a igreja foca no indivíduo. Os sacramentos da igreja são algumas vezes tomados coletivamente, mas sempre em porções individuais e o mais importante deles, o batismo, é individual, como individual é a salvação. Bem, e qual é a mudança que a igreja faz no indivíduo? Segundo o livro “Believing, behaving, belonging”, de Richard Rice, essa mudança passa por esses três elementos: a) começar a acreditar e confiar em Deus, b) se comportar de um jeito diferente e c) pertencer a uma comunidade de crentes.

Are they indeed?
Quanto à segunda pergunta, é importante notar como Cristo fazia e como nós fazemos, porque infelizmente são duas coisas diferentes. Para fazer discípulos, Aquele a Quem chamamos de Mestre chamava as pessoas para passar tempo com Ele. “venha e veja”, o convite de Filipe a Natanael (João 1:46), é a expressão exata do método de Jesus. O embrião do que mais tarde se tornou o corpo de apóstolos, o time que chacoalhou o mundo helênico e mudou a História, foi aquele grupo de homens seguindo Jesus por onde Ele ia, comendo com Ele, vendo como Ele reagia quando uma criança aparecia, observando como Ele se comportava com os líderes religiosos de então, ouvindo a base teórica de Seus atos nos Seus sermões e nas Suas conversas casuais.

O que estou tentando dizer é que Jesus começava o processo de mudança do mundo recebendo as pessoas em uma comunidade de amor e companheirismo. Era isso o que levava a pessoa a uma relação pessoal substanciosa com Deus e só então é que vinha a mudança dos hábitos e comportamentos exteriores.

Se a igreja hoje falha em mudar o mundo é porque ela inverte completamente essa dinâmica exigindo que a pessoa de alguma forma, por milagre ou por “combustão espontânea”, passe a acreditar em Deus, então mude de comportamento para só aí ser recebida na comunidade de “santos”.

Se a igreja hoje falha em mudar o mundo é por não estar de braços abertos para quem (ainda) é diferente. Ela tem perdido um tempo precioso se esforçando para parecer diferente (nós usamos uma roupa diferente em um dia diferente, ouvimos música diferente e morremos de medo de ser contaminados pelo “mundo”). Mas não faremos discípulos se não tivermos sido discípulos antes e as pessoas serão atraídas não pela roupa que usamos, mas por reconhecer que temos nos relacionado com Alguém diferente.

Que a enorme massa de almas feridas que vaga errante por esta cidade seja abrigada em uma comunidade menos propensa a julgar e mais propensa a amar incondicionalmente, para que o restante do processo tome seu curso natural.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

No deserto da tentação


No último sábado, na igreja, ouvi um amigo traçar um interessante paralelo entre a tentação de Eva e a de Jesus, que nunca havia me ocorrido e que me apresenta a lições fantásticas para a luta que eu tenho pela frente hoje.

Em ambos os casos, a estratégia de Satanás começou apelando para o apetite, esse fator que muitos ainda tratam como uma questão secundária e inofensiva. As duas tentações mostram que aquilo que comemos e o quanto comemos tem impacto na eternidade. Eva achou o fruto “desejoso para se comer”, enquanto Jesus disse, citando a Bíblia, que “nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”, mostrando que quando o apetite manda numa direção e as Escrituras apontam outra, devemos tomar o outro caminho. Afinal, Ele venceu e nossos primeiros pais não.

Na sequência Satanás pergunta a Eva se era verdade que ela não podia comer de árvore nenhuma do jardim, uma sutil distorção das palavras de Deus. Quando Eva tenta defender a Deus corrigindo a serpente, Satanás mais que depressa lança a mesma mentira atraente que repete à exaustão ao longo dos séculos: certamente você não vai morrer. Para Jesus ele faz o mesmo; também citando a Bíblia (sim, a Bíblia pode ser uma ferramenta de tentação para quem está com ela, mas longe do Autor dela), quando sugere-lhe que se atire do alto do templo. Você não vai morrer, nem se machucar, o tentador está dizendo nas entrelinhas, Deus não vai permitir que isso aconteça. Você é eterno! Eternidade sem atender ao “assim diz o Senhor” foi a promessa que quebrou a fidelidade de Eva. Jesus, ao contrário, ao responder “não tentarás ao Senhor teu Deus”, não apenas venceu a tentação como também me ensinou o valor de uma vida humana. Ele me ensinou que com a vida que ganhei de meu Deus não sou autorizado a brincar. Não devo arriscá-la, não devo andar no limite, não devo tratá-la como se ela fosse um desses produtos com refil que pode ser reposto a qualquer momento. A vida é sagrada e eu não posso colocá-la em risco para provar que Deus me ama.

Na terceira tentação Satanás apela para nossa ambição de sermos mais do que somos. Ele diz a Eva que ela será igual a Deus e diz a Jesus que Ele será o dono do mundo com todas as suas maravilhas. Sutilmente, contudo, ele está falando que só seremos deuses se, antes de mais nada, o fizermos deus. Precisamos atender à sua voz e comer, e não à divina, que manda não comer; precisamos adorá-lo antes de poder ser adorados. Foi esta ambição que o fez derrapar lá no começo. Ele quis ser igual a Deus (Isaías 14:14), ele quis ser adorado também. Mais uma vez, Eva se convence dos argumentos dele e cai, novamente Jesus vence. Isso me faz pensar na forma como lido com as pessoas sobre quem tenho influência, especialmente minha esposa e filhos. Meus atos revelam um desejo legítimo e santificado de ser amado, ou a forma como tento manipular sua vida revela que eu quero no fundo é ser adorado e tratado como um deus?

Satanás não mudou sua estratégia desde que ela deu certo na primeira vez. Não tem porque adotar outra estratégia comigo e com você hoje. O que muda é a embalagem, o produto é o mesmo: apetite (condescendência com os sentidos), eternidade, endeusamento. Você também está no deserto para ser tentado e só vai triunfar onde nossos pais fracassaram se estiver segurando a mão de quem a venceu. “Em Deus faremos proezas” (Salmo 108:13). Inclusive ser vitoriosos na tentação, como Ele foi.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Deus fraco


O incrivelmente forte Hulk se aproxima de Loki, que tenta intimidar o monstrengo verde: “você não pode me enfrentar; eu sou um deus!” Hulk então o pega pelos pés e bate com ele no chão repetidas vezes, como se ele fosse um boneco de pano. Por fim o deixa no chão rachado pela violência dos golpes e dá as costas dizendo: “deus fraco.”

“Puny god” se tornou uma das frases mais conhecidas do filme “Vingadores”, talvez porque é dos lábios do algo irracional Hulk que vem esse juízo sobre o vilão da história, talvez pelo fato de que esconde o velho anseio humano de conseguir medir forças e vencer um deus. Ou talvez só porque vem depois da cena do vilão apanhando feio. Não sei precisar ao certo a razão da popularidade desse mote, mas sei que ele me persegue desde que assisti ao filme.

Racionalmente, tenho consciência de que o Deus a Quem adoro, a Quem eu manifesto obedecer e seguir, é onipotente. Intelectualmente aceito os milagres como fatos históricos: confio que o mar Vermelho se abriu, que o maná caiu do céu, que o sol parou no meio do dia, que Jesus andou sobre as águas, alimentou a milhares com poucos pães e peixes e que ressuscitou a Lázaro. Mas temo que na prática de meu dia-a-dia eu me relacione de fato com um deus fraco.

É que às vezes eu reflito em minhas fraquezas de caráter, meus traços repulsivos de personalidade, meus hábitos lenientes e indulgentes e percebo que por baixo da pele dessas coisas que deveriam ser diferentes encontro a sensação de que Deus não as pode mudar. Encontro minhas desculpas tão esfarrapadas quanto trapos de imundícia: esse “traço de personalidade herdei de meu pai, está no sangue, não tem jeito”; “Deus vai entender que estou sendo forçado a fazer isso nessa fase da minha vida, depois as coisas entram nos eixos”; “ninguém é perfeito e ninguém é de ferro. Na média sou muito melhor do que a maioria das pessoas...” Encontro essas e outras tantas. Confundo (ou finjo confundir) o fato de não querer mudar em certos aspectos com a noção, absolutamente falsa, de que é impossível mudar.

É preciso que venha alguém mais forte que o Hulk, o Espírito Santo, me tome pelos pés e me chacoalhe com força para que eu recorde que o Deus que me criou e salvou, o Deus que me mantém de pé e que mantém o fôlego de vida em minhas narinas, é o que inspirou estas palavras: “quem está em Cristo, nova criatura é”, “tudo posso naquele que me fortalece”, “sede perfeitos como perfeito é vosso pai”, “pois é Deus quem opera em nós, tanto o querer, quanto o efetuar” (II Cor. 5:17, Fil. 4:13, Mat. 5:48, Fil. 2:13). É preciso encarar com coragem o sonho de Deus a meu respeito, muito mais amplo e alto que os meus sonhos, e mergulhar nele. E mergulhar nEle.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Você está sendo observado


Davi é um dos personagens mais comentados de todo o panteão de grandes caras da Bíblia. Pensar que um homem capaz de adulterar, mentir e mandar matar para acobertar o próprio pecado possa ser chamado de “o homem segundo o coração de Deus” tem causado urticárias em muita gente ao longo dos séculos. Se perguntarmos onde exatamente reside a grandeza de Davi, podemos apontar a sua propensão ao arrependimento pelo próprio pecado, sua confiança inabalável em Deus mesmo diante dos gigantes da vida, sua incrível capacidade de sofrer injustiças sem aproveitar chances ótimas de se vingar (demonstrada na história com Saul), sua lealdade e outras tantas qualidades. Mas talvez para conhecer alguém precisemos mais do apenas ler sua história; talvez precisemos ler o que ele escreveu.

Foi fazendo isso por estes dias que descobri outra invejável grandeza de Davi. Em minha leitura dos Salmos (livro que eu já confessei aqui não estar entre meus favoritos da Bíblia), tropecei neste texto, encravado no coração do Salmo 51, aquele que ele escreveu depois que suas diatribes com Bate-Seba e Urias virem à tona: "Dê-me de novo a alegria da tua salvação e conserve em mim um espírito desejoso de obedecer. Então poderei ensinar seus caminhos a outros pecadores para que eles se voltem para o Senhor" 51:12 e 13.

Algumas páginas adiante tropecei em mais isto: "Ó Deus, o Senhor conhece muito bem as minhas culpas; sabe que fui insensato. Ó Senhor, Senhor dos Exércitos, não permita que outras pessoas que confiam no Senhor percam a esperança e a fé por minha causa. Não deixe que elas sejam envergonhadas, ó Deus de Israel!" 69:5 e 6 (ambos na versão da Bíblia Viva)

Outro aspecto da grandeza desse grande herói reside justamente aí: Davi tinha uma consciência muito grande do fato de que a salvação dos que o rodeavam era impactada pela sua atitude. Ele sabia que não poderia levar ninguém para perto de seu Deus, a fonte de sua força e de sua alegria, se sua vida não estivesse em harmonia com seu credo. Somente tendo recuperado o “espírito desejoso de obedecer” poderia ensinar a outros as delícias de estar em paz com Deus, e ele queria isto! Ele sofria por não poder fazer isso!

O cristianismo teria uma posição radicalmente diferente da que hoje tem em nossa sociedade se houvesse mais pessoas nele com a consciência de que têm uma responsabilidade para com o mundo a seu redor, uma responsabilidade que confere um raro prazer quando atendida devidamente.

Que sua preocupação com a possibilidade de outros virem a tropeçar pela sua conduta possa ser grande a ponto de você cantá-la em oração a seu Deus. E que Ele responda a essa prece como respondeu à de Davi.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A burka e o estupro


Há diferenças enormes entre a forma como a cultura ocidental, judaico-cristã encara os crimes sexuais e a forma como eles são vistos no mundo islâmico. Se aqui o estupro é o pior de todos os crimes, lá é a sedução que é vista como a maior das atrocidades. Por trás dessa disparidade está o entendimento dos muçulmanos de que o estupro, a rigor, não passa pela tomada de uma decisão pela vítima, ao passo que a sedução sim. A sedução seria uma forma de levar o outro a tomar uma decisão pecaminosa, uma forma de quebrar a virtude alheia.

É claro que isso acaba gerando distorções estranhas. Por exemplo, não faz muito tempo que o Irã condenou à forca uma moça de 19 anos que admitiu haver esfaqueado e matado um dos três homens que tentaram estuprá-la. O pensador esloveno Slavoj Zizek comentou assim o caso: “Eis o impasse: qual seria o resultado se ela decidisse não se defender? Se tivesse permitido que os homens a estuprassem, seria submetida a cem chicotadas pela lei de castidade; se fosse casada na época do estupro, provavelmente seria considerada culpada de adultério e condenada à morte por apedrejamento”.

E como atingiram esse nível absurdo de distorção da realidade que faz com que a mulher seja sempre culpada? Zizek lembra outros dois fatos que talvez ajudem a explicar. Em um deles, uma mulher muçulmana matou-se após haver ficado por algumas horas presa em um teleférico quebrado com um homem que não era seu marido, isso porque ninguém acreditaria ser possível um homem e uma mulher terem ficado em circunstâncias assim e “nada ter acontecido”. O outro fato foi a declaração de um líder religioso muçulmano da Austrália, em 2006, a respeito de um grupo de muçulmanos presos por estupro coletivo: “Quando se leva carne descoberta para a rua e a deixa lá... os gatos vêm e a comem... de quem é a culpa, dos gatos ou da carne descoberta?” 

Ou seja:  ao demonizar a sedução, a cultura machista islâmica encontrou uma fácil válvula de escape moral: eu só estuprei porque fui seduzido. Aí está a razão de, nos círculos mais radicais, obrigarem as mulheres a estar cobertas da cabeça aos pés, sempre, porque qualquer parte do corpo à mostra pode levar um homem a não responder por seus atos...

Ao invés de simplesmente balançar a cabeça e dizer tsc, tsc pela forma como esses “bárbaros” tratam a mulher, deveríamos tentar aprender alguma coisa sobre as desculpas que nós mesmos costumamos dar para o nosso pecado. Se você ligar a TV em qualquer capítulo de qualquer novela vai provavelmente se deparar com situações em que algum personagem é levado a fazer alguma loucura pela paixão, como se houvesse tentações irresistíveis. Essa mentalidade tem dado cara, cor e cheiro à sociedade em que vivemos e a assim chamada ciência tem tentado dar um verniz de verdade suprema a ela dizendo que não podemos reprimir nossos instintos, que devemos fazer o que o nosso coração manda sempre e que se agirmos de outra forma não atingiremos o objetivo máximo desta vida, que é sermos felizes. É como se fôssemos estupradores muçulmanos apontando para o nosso pecado e dizendo: a culpa é só dele, que atravessou o meu caminho.

É verdade que a tentação é irresistível, mas só para quem está distante de Deus. “Quem está em Cristo, nova criatura é”, e “tudo posso nAquele que me fortalece” (II Coríntios 5:18 e Filipenses 4:13). A tentação, qualquer uma, é resistível, porque “não vos sobreveio tentação senão humana” (I Coríntios 10:13).

Mais do que a certeza da vitória, estes textos nos relembram de nossa responsabilidade pessoal pelos nossos atos. Não adianta querer encontrar desculpas que justifiquem agir de forma contrária ao “Assim diz o Senhor”. Se isso acontecer, a única alternativa é pedir perdão, porque o pedido de perdão não traz atrelado a si nenhuma dessas desculpas esfarrapadas, mas reside unicamente na confiança na misericórdia do Pai. Se você o fizer, Ele vai dizer: vá, e não peques mais. Eu vou dar o poder para que você consiga!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A fé e o vírus


No primeiro século, um pequeno e nada influente grupo de pessoas começou a espalhar uma estranha mensagem. Dizia respeito a um deus que havia sido morto por homens e que depois havia ressuscitado. A hipótese era inédita e por isso mesmo absurda. A esperança que uma tal mensagem fornece não é tão intuitiva, não é, por assim dizer, fácil. Mesmo assim, aquilo se espalhou de modo viral. O pequeno grupo, num espaço curto de tempo, se tornou um grande grupo, capaz de incomodar o stablishment e de alcançar pessoas por todo o mundo helenizado.

No vigésimo primeiro século, um novo e espetacular meio de comunicação é inventado e popularizado. Quebrando paradigmas seculares, agora qualquer particular, por simples e humilde que seja, tem voz e pode falar a milhões de outras pessoas. Pode-se dizer que pela primeira vez na História é possível saber o que o mundo inteiro está falando, no que está pensando e o que está passando adiante, e a resposta é: fotos de gatos, gangnan style, memes, inócuos protestos políticos e frases de autoajuda.

Em “Acredite, estou mentindo”, Ryan Holiday, um assessor de imprensa americano que se apresenta como “manipulador de mídias”, conta como consegue tornar assuntos de seu interesse virais, alavancando filmes inexpressivos e personalidades obscuras. “Em 2010”, ele conta, “dois pesquisadores da Wharton School examinaram mais de 7 mil artigos que chegaram à Lista dos Mais Enviados por E-mail do New York Times (...) De acordo com o estudo, ‘o mais forte preditivo de virulência é a quantidade de raiva que um artigo evoca’ (...) Os pesquisadores descobriram que, embora a tristeza seja uma emoção forte, ela é totalmente antiviral. Tristeza, como a que sentimos ao ver um cachorro abandonado tremendo de frio ou um sem-teto esmolando dinheiro, é uma emoção não estimulante. (...) As coisas devem ser negativas, mas não demais. O desespero e falta de esperança não nos levam a fazer algo. Pena, empatia – estes nos motivam a fazer algo, como levantar do computador e agir. Mas raiva, medo, excitação e riso nos fazem espalhar conteúdo. Esses sentimentos nos impelem a fazer algo que nos faz sentir que estamos fazendo alguma coisa, quando na realidade estamos apenas contribuindo para aquilo que é, provavelmente, uma conversa superficial e absolutamente sem sentido”.

Chegamos a uma realidade em que, ainda que tenhamos uma verdade palpitante e a fonte de nossas maiores esperanças, não a passamos adiante, porque isso não é o tipo de coisas que as pessoas passam adiante. Elas passam adiante só coisas que os outros podem sentir que fizeram algo clicando em “compartilhar” e mais nada. Passar coisas que as façam meditar que talvez não estejam vivendo da maneira correta é intrusivo e antipático, e não queremos que os outros deem um “não curti” no que estamos replicando, porque aí seríamos bloqueados.

Acho que não se trata de ser impertinente, mas de deixar claro o que é realmente importante para você, não importando as consequências. Se trata de não esquecer que na Bíblia existe este texto: “prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” (II Timóteo 4:2).

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fim do mundo? Yes!

Em 1988 a banda de rock alternativo americana R.E.M. lançou um single com a canção It´s the end f the world as we know it (and I feel fine), que teve relativo sucesso e que decerto está sendo executada um pouco mais do que o normal hoje. Houve um grande barulho em torno do fim do mundo supostamente profetizado pela civilização maia. Hoje, 21/12/2012 se encerraria um ciclo astrológico de 26 mil anos, o que levou grupos esotéricos a anunciar para a data nada menos que o fim do mundo. Hollywood e seu filme-tragédia 2012 se incumbiram de fazer o resto, ou seja, propagar a ideia por aí. O assunto foi tratado pela maior parte das pessoas com ironia, mas é curioso ver que na visão generalizada, "fim do mundo" é algo terrível, com o que não pode haver um "I feel fine" (eu me sinto bem) associado. A visão do fim do mundo como uma catástrofe a ser evitada é universal. Nos filmes de heróis, o mundo é sempre salvo da destruição pela atuação de uns poucos. Um outro exemplo bem didático é o filme "A Sétima profecia", estrelado por Demi Moore. Ele começa com os sete selos do Apocalipse sendo quebrados por Jesus, dando início a catástrofes localizadas. De repente o filme introduz uma crendice a respeito de uma sala de almas no paraíso. O mundo estaria acabando porque as almas lá estavam se
esgotando. É o bebê que a protagonista está gestando que "salva o mundo", repovoando a tal sala de alguma forma, e aí o Apocalipse foi cancelado. Todos respiram aliviados e podem seguir sua vida frágil, vulnerável, cheia de prazeres vãos, cheia de alegrias fugazes e projetos egoístas, interrompidos muitas vezes pela dor e pela solidão. Outra reação normal à febre do fim do mundo é pretender "aproveitar" os últimos momentos para fazer as coisas que você se negou, os desejos que você reprimiu. Já que amanhã não vai haver ninguém cujo juízo a seu respeito você precisa temer, então você pode fazer o que bem entender. Por trás desse conceito está a ideia de que a sociedade nos impõe normas de conduta restritivas e que a real felicidade está em dar um drible nelas e fazer o que seus hormônios pedem. O clima desde ontem à noite nos noticiários, inclusive nos mais "sérios", como o Jornal Nacional da Globo, era de piada. O sumo desse caldo é: acreditar no fim do mundo é coisa de idiota, o mundo vai continuar do jeito que está por longas e longas eras (e que isso é uma coisa ótima) e, já que o mundo continua, temos que dar um jeito de realizar nossos desejos aqui e agora. O Apocalipse, contudo (o livro da Bíblia e não, a ideia que fazem dele), diz que o fim do mundo é uma coisa muita boa. Diz que o fim do mundo é sinônimo de ponto final na história da dor, da morte, da solidão e da opressão e aí nenhum de nossos projetos para esta realidade aqui pode ser melhor do que isso. O livro de Daniel diz que o juízo final é praticado "a favor dos justos" (7:22), ou seja, não é "contra alguém", mas "a favor de alguém", é algo que serve para salvar e não destruir. Como somos seres moralmente livres para escolher, podemos optar por, através de Jesus, ser "justos" e assim viver no ambiente sem mais dor ou lágrimas, ou então experimentar a morte eterna. E "ser justo" implica em não ter mais o desejo de fazer aquelas coisas que o mundo confunde com "aproveitar a vida". II Pedro 3 afirma que "no final dos tempos" virão zombadores afirmando que tudo está como sempre esteve e que a promessa de Jesus é furada. Não é o que acontece hoje? Suas previsões todas se cumpriram à risca até aqui. Crer nessa última implica em ser alvo da zombaria do mundo que acha que o fim do mundo é conversa pra boi dormir, mas é um preço bem pequeno a se pagar. Se você conhece este Deus fantástico e já passou tempo com Ele, sabe que pode confiar nEle. E na Sua promessa.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Baixe, leia e divulgue!


Amigos que me acompanham semanalmente, atendendo a solicitações de alguns de vocês, preparei um ebook com uma compilação de 366 textos escritos por mim nos últimos 14 anos. O resultado é um devocional com textos diários para reflexão. Acho que o resultado final ficou realmente muito bom, mas opinião de pai não serve, então preciso da sua opinião e de sua ajuda para divulgar o trabalho. 

"Instantâneos do Reino" está à disposição para venda aqui, basta clicar na capa do livro.

Espero que esse trabalho sirva para honra e glória de Deus e que de alguma forma ajude você a ter um ano fantástico ao lado dEle.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Jack Bauer e o bem maior


Durante as oito temporadas de 24 horas, série de TV americana estrelada por Kiefer Sutherland, vemos o agente Jack Bauer salvando a pátria ou a vida de milhões de pessoas em “tempo real”, ou seja, acompanhamos oito dias inteiros, de 24 horas, na vida desse personagem. Ele é um agente de uma unidade antiterrorismo e luta contra chineses, árabes, grupos paramilitares de ultradireita dos próprios Estados Unidos e outros inimigos, aparentes ou ocultos, enquanto precisa proteger a própria família. O reloginho digital que aparece de quando em quando mostra que o tempo está escoando e confere um ar de urgência e uma adrenalina difíceis de rivalizar na ficção contemporânea.

Mas há um outro aspecto da série que a torna um caso único: para conseguir seus fins, para alcançar seus nobres objetivos, Bauer não hesita em torturar. A tortura tem sido um tabu para a sociedade moderna. O mocinho pode matar à vontade, mas torturar não. A tortura é ultrapassar um limite vital. Mas no caso de Jack Bauer, para o grande público não há problemas nisso. Embora seja a primeira vez que o mocinho de uma série de TV lança mão de expedientes assim, está claro que ele está agindo por um bem maior. Sua ação está justificada. Além disso, vê-se que Bauer não é imune ao dilema ético envolvido na tortura; ele sofre, se angustia. O fato de ser um homem digno e de tentar ser um bom pai de família e esposo suavizam esse traço negro de sua personalidade.

A dúvida aqui é: um cristão estaria justificado por fazer o trabalho sujo por um bem maior? Há, enfim, fins que justificam alguns meios?

Penso que Deus tomou uma decisão análoga para nos liberar dela. Para que a raça humana sobrevivesse, Ele consentiu em entregar Seu Filho para ser torturado. Deus não tortura o outro, Ele Se deixa torturar para me fazer entender o quanto uma vida humana é sagrada e o quanto uma vida humana vale de fato. Ele faz isso com um respeito estrito à Lei. Ele critica as relativizações da Lei. “Pois quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente” (Tiago 2:10).

Existem momentos em que uma mentira esteja justificada? Mesmo que seja uma mentirinha? Será que em alguns momentos não estamos justificados por reter alguns impostos? Será mesmo que não existem situações em que precisamos de uma válvula de escape moral para conseguir manter nossa caminhada ascendente?

Não, é a resposta dEle. Ainda que você sofra. Ainda que alguém que você ama sofra. Melhor coisa é chorar e sofrer agora para estar longe do choro e do sofrimento eternamente.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O que aprendo com fraldas



Estamos há duas semanas de volta ao magnífico mundo das fraldas, mamadas, choros e arrotos aqui em casa. Para alegria de minhas noites, o item “choros” é o menos frequente nessa lista e a ela podemos agregar uma paixão descomunal. Há algo de totalmente especial no afeto que se sente por uma criatura que ainda não interage com você e que depende de você pra absolutamente tudo, não por ela ser dependente e por não interagir, mas por ela ser carne de sua carne e sangue de seu sangue, com o que mais de metafísico esteja contido nesse fato.
E graças a estas palavras de Donna J. Habenicht (em “Como ajudar seu filho a amar Jesus”, Casa Publicadora Brasileira), não tenho mais pressa para chegar à fase em que ele interagirá comigo. Percebi que estes dias são igualmente importantes na formação do caráter de meu filho. Veja:
“Aprender a confiar é um estágio inicial no desenvolvimento da personalidade. Todo crescimento posterior da personalidade repousa sobre o fundamento da confiança. Um bebê que se desenvolve normalmente aprende a confiar durante o primeiro ano de vida, enquanto adultos amorosos lhe suprem as necessidades e o convencem de que o mundo é um bom lugar, onde ele pode confiar nos outros. Naturalmente, a criança pode desaprender a confiar mais tarde, se a vida lhe trouxer experiências cruéis, nas quais tenha que desconfiar a fim de sobreviver.
Aí é que entra amamentar, fazer arrotar, dar banho e trocar fraldas. Aprender as lições espirituais de amor e confiança envolve muito mais do que abraços e beijos, embora estes sejam importantes. Para um bebê, amor é ter alimento quando está com fome, conforto quando sente medo e agasalho quando está com frio.”
O que me conduz a uma interessante conclusão a respeito da natureza do sofrimento em minha vida. De fato, amor e confiança são coisas que temos ocasião de sentir quando aparecem a fome, o medo, o frio. Fome, medo e frio, uma lista exemplificativa, e não exaustiva, seriam oportunidades para aprender quem é confiável e para experimentar confiança. O nenê não se revolta porque chegou a sentir frio, ele se regozija porque o frio foi aplacado pela mãe e passa a confiar nela incondicionalmente. Assim, muito embora tenhamos a ilusão de querer poupar todo o sofrimento de nossos bebês, é justamente a aparição do sofrimento, da falta, que eles estão aprendendo o que há de mais importante na vida.
Quando algo faltar, amigo, saiba que é a ocasião em que você está sendo convidado a dar um passo vital em sua salvação eterna: confiar.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não é brinquedo não


As páginas amarelas de Veja publicaram esta semana uma interessante entrevista com o jovem pastor norteamericano Rob Bell. Bell fundou a igreja Mars Hill, em Grand Rapids, que cresceu até se tornar uma das maiores congregações do país. Multimídia, ele aparece em uma série de vídeos de cerca de dez minutos em que faz pequenas e profundas pregações e também publicou diversos livros. Tudo isso fez dele um expoente do cristianismo e por isso mesmo foi grande a controvérsia quando, em seu último livro, defendeu a ideia de que não existe Céu nem inferno.

Na entrevista, Bell afirma que ninguém sabe o que acontece depois da morte, então deveríamos ter mais humildade com esse assunto. E ele tem razão, ao menos se aplicarmos à palavra “sabe” nessa frase o sentido científico de conhecimento empírico.

É no mínimo curioso notar que exista tanta divergência quanto à resposta a essa pergunta essencial do ser humano: “para onde vamos?” Mais curioso ainda é constatar que a esmagadora maioria das teorias a respeito contradizem frontalmente o que a Bíblia afirma. A Bíblia afirma que somos o encontro de um corpo, feito do barro pelo próprio Deus, e do fôlego de vida que Deus sopra (Gênesis 2:7). Assim, o corpo sem o fôlego não é “alma vivente”. O fôlego sem o corpo também não é “alma vivente”. Uma alma, segundo a Bíblia, é a conjugação desses dois fatores. As Escrituras vão mais além quando afirmam que os mortos não sabem coisa nenhuma, não têm consciência, não têm parte alguma em nada que acontece no mundo dos vivos (Eclesiastes 9). O próprio Jesus compara a morte a um sono. Ora, quem está dormindo não está acompanhando o que acontece, muito menos intervindo e tomando parte nas idas e vindas dos humanos vivos.

Quer dizer que ao morrer eu vou para a sepultura? Meu espírito desencarnado não vai pra algum lugar, melhor ou pior? É exatamente isso. Mas em I Tessalonicenses 5 Paulo afirma que não queria que ninguém ficasse em ignorância quanto ao que acontece “aos que dormem”. Ele afirma que quando Jesus voltar a essa Terra, soará o brado e então todos os que morreram “em Cristo” ressuscitarão, ou seja, o corpo reconstruído reencontrará o fôlego de vida e essas pessoas voltarão a viver, dessa vez eternamente ao lado de Jesus.

Rob Bell tem razão quando afirma que ninguém sabe (empiricamente) o que acontece após a morte, mas não tem razão de afirmar que não temos como saber. Paulo disse que ninguém deveria ser ignorante quanto a isso.

Mas a resposta da Bíblia a essa pergunta é tão impopular porque é muito mais confortante acreditar na mentira do “certamente não morrerás” dito pela serpente a Eva e repetido à exaustão pelos séculos afora. É um alívio pensar que vou ter infinitas oportunidades de ser alguém melhor. Se não der nessa vida, tento na outra, então posso pensar em “ser alguém melhor” mais pra frente.

Conhecer o que as Escrituras falam sobre a morte tem como primeiro efeito em nós nos confortar com a certeza do reencontro com nossos queridos que já foram, dormindo em Cristo. O segundo efeito é nos fazer entender que esta vida não é brinquedo. Com a vida não se brinca! Ela é a única bala da agulha, nossa única e final oportunidade de escolher a vida de verdade, a vida eterna.

Estamos sendo constantemente lembrados de que a qualquer momento nossa vida pode ser ceifada. Somos frágeis, somos vulneráveis. Se entendermos que com a vida não se brinca, não adiaremos mais a mais importante das decisões.

É o que lhe desejo hoje.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Canção para Pedro

Canção para Pedro
 
Sabe, Pedro
Desde cedo
Quando soube que você viria
Gastei horas pensando
No que lhe ensinaria
Nas coisas que você precisa saber
Sobre esta vida
E pra que você comece
Bemv
Queria que soubesse
Que
 
Sucesso é amar e ser amado
A paz é o dom supremo
Felicidade não se vende no mercado
Amizade muito menos
Nunca tenha preguiça
De fazer o que é certo
Mantenha sempre a família
E quem se ama por perto
Consuma diariamente
Água, Bíblia e salada
Evite determinadamente
O pecado, o rancor, mais nada
Nunca, por medo da sujeira
Evite uma amoreira
E tome sempre que der
Banho de cachoeira
Nunca faça a besteira
De ignorar um céu estrelado
E tudo que você quiser
Vá atrás, não fique parado
Consuma sem moderação
Livros, amizade e oração
E quando a solidão apertar
Confie em Deus e o mais ele fará
 
Sabe, Pedro
Desde cedo
Quando soube que estava a caminho
Gastei horas orando
Pedindo, implorando,
Pressenti que esse discurso
Pra ser assimilado totalmente
Requer mais que palavras
Mas uma vida coerente
E enquanto juntos temos tempo
Peço a Deus, me faça exemplo
Me faça feliz como ninguém
Pra você querer ser feliz também
Amém.
 

(Pedro nasceu às 09:35 de hoje, com 3,490 kg e tamanho ainda incerto, está ótimo e a mãe também. O pai está meio desidratado de tanto babar, mas a opinião geral é de que sobreviverá. Já se instalou uma saudável polêmica sobre quem ele puxou e estamos explodindo de gratidão a Deus. Rejubile-se conosco)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Os crentes também amam


Há algumas semanas eu comentei aqui, partindo dos textos em que Paulo nos adverte a ter uma postura de tolerância, cuidado e paciência com os irmãos da igreja, que Deus tem um interesse curioso em manter pessoas fracas, erráticas, chatas e inconvenientes na igreja, para nossa edificação, e que não devemos tentar fugir delas. Bem, talvez tenha chegado o momento de dar um passo além.

Em João 8:35 Jesus dá o sinal distintivo da verdadeira igreja na Terra. Talvez você esteja mais afeito aos textos do Apocalipse que dizem que a verdadeira igreja é aquela que guarda os mandamentos e a fé de Jesus, mas quando Ele próprio quis destacar qual o elemento distintivo de Sua igreja verdadeira para as dos falsos profetas, Ele afirmou: “nisso conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”.

Nós gostamos de falar de amor nos meios cristãos. Falamos dele o tempo todo. Fiz uma breve pesquisa com o auxílio do site da Sociedade Bíblica do Brasil e vi que apenas o livro de Tiago não menciona a palavra amor nem uma vez no Novo Testamento. Com uma tal ênfase, é difícil fugir do tema. O curioso é que nossa forma de enfocar esse assunto é frequentemente de forma vaga, dirigindo o amor “às pessoas”. “Pessoas”, assim, essa coisa indeterminada, sem rosto e que de preferência está bem longe. Pessoas que sofrem como o homem que o bom samaritano encontrou no caminho e aí pode ser que a gente tope com alguém numa situação semelhante algum dia... Contudo, outra coisa que essa minha pesquisa pelo tema do amor no Novo Testamento me revelou é que essa palavra é empregada geralmente no contexto da própria igreja.

Jesus disse que se alguém andasse por uma rua que tem muitas igrejas e passasse olhando lá pra dentro, iria poder reconhecer a igreja verdadeira pelo grau de afeição e amor que os membros dessa igreja têm uns pelos outros. Uns pelos outros primeiro, e só depois pelas “pessoas”, aquelas sem rosto que a gente pode um dia, talvez, encontrar (mas que tomara que não encontre).

Quando introduz sua brilhante ilustração da igreja como um corpo, Paulo afirma que a coisa funciona num tal nível de organicidade amorosa que “se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (I Coríntios 12:26), e aí a gente pensa na nossa igreja e vê que ela não funciona assim. Na minha igreja muitas vezes quando alguém sofre os demais parecem agir como se ficassem aliviados porque não aconteceu com eles e às vezes até assumem um ar superior que emula a ideologia teológica dos amigos de Jó. Na minha igreja, na maioria das vezes que alguém tem uma grande vitória – um emprego novo, uma boa promoção, a compra de uma boa casa, a assunção de um posto honrado, etc – essa pessoa vai ter que comemorar sozinha, porque os demais parecem sentir uma impossibilidade absoluta de ficar feliz por ela.

Penso que quando Paulo afirmou que a igreja seria o palco onde você seria chamado a exercitar paciência, tolerância e o dom de direção e advertência, falando em outros cantos que o tipo de sentimento que deveria imperar na igreja seria o amor, ele indicava que os fracos, aqueles que invejam e não amam, seriam a exceção, e não a regra.

Existe essa peculiaridade irritante do amor: ele é princípio. Ele não espera o outro ser amável para amar. Ele não espera sentir amor para agir como se amasse. Você decide amar as pessoas que o rodeiam em sua igreja. No resto Ele age.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A diferença


Talvez a diferença entre o cristão e o mundo resida menos em ele fazer ou não fazer certas coisas que o mundo faz, usar ou não usar certas coisas que o mundo usa, e mais na relação que o cristão tem com essas coisas. É claro, há coisas que o mundo faz e usa de que o cristão se abstém em absoluto, mas há uma distinção radical, inda que sutil, entre o cristão e o mundo, uma distinção que é de outra natureza.
 Veja este intrigante texto de Paulo, achado no meio do ainda mais intrigante capítulo 7 de I Coríntios: “Irmãos, a coisa importante é lembrar que o tempo que ainda nos resta é muito curto. Por esta razão, aqueles que têm esposa devem viver como se não tivessem. Os que choram, como se não estivessem chorando; os que estão felizes, como se não estivessem; os que compram, como se não fosse deles o que compraram; os que tratam de coisas deste mundo, como se não estivessem ocupados com elas. Porque o mundo, em sua forma atual, bem depressa se acabará” (Bíblia Viva).
 Comentando este texto, o alemão Dietrich Bonhoeffer diz: “Tal é a vida da igreja no mundo. Cristãos vivem como outros homens: eles se casam, choram e se alegram, eles compram coisas e usam o mundo em sua existência cotidiana. Mas eles têm tudo através de Cristo apenas, nele e por causa dele. Assim, eles não estão ligados a isso. Eles possuem tudo como se não possuíssem. Eles não enterram seu coração em suas posses, mas são intimamente livres. É por isso que são capazes de usar o mundo sem ser retirados dele (I Coríntios 5:13). E é por isso também que eles podem deixar o mundo quando ele se torna um impeditivo ao discipulado... Eles vendem e se lançam no comércio, mas apenas tanto quanto suas necessidades cotidianas o exigem. Eles não acumulam tesouros e põem neles seu coração. Eles trabalham, porque não lhes é permitido permanecer ociosos. Mas seu trabalho não é, decerto, um fim em si mesmo. O trabalho pelo trabalho é uma noção alheia ao Novo Testamento”.
 Talvez mesmo a diferença fulcral entre o cristão e o mundo resida na forma como ele lida com o casamento, o trabalho, o comércio, as alegrias e tristezas da vida. Para ele, nenhuma dessas coisas é um fim. O casamento não é o que determina o “e foram felizes para sempre”, embora seja uma parte importante do cenário geral da vida; o sucesso no trabalho ou o dinheiro que dele advém não são o que determina o valor do cristão como pessoa – seu valor é encontrado na cruz de Cristo. Assim, o cristão não trabalha e não negocia para vencer o outro ou para se impor, o que determina em que ele utilizará um ferramentário e uma ética completamente diferentes dos que o mundo utiliza. E a alegria e a tristeza que aparecem no caminho do cristão, ele sabe, não são o fim e vão se alternar nesta vida enquanto estivermos no mundo. O cristão não se apega a um ou outro para encontrar o sentido da vida, porque sua vida já tem um sentido muito mais elevado, calcado na certeza do livramento alcançado na cruz e na esperança da vitória definitiva que é de Cristo e que está à frente, por mais um pouco de tempo (“o tempo que ainda nos resta é muito curto”!). Por isso o cristão não se desespera quando aquela alegria passa e não se ilude com a tristeza passa.
 A que você se apega de fato, @migo? À cruz de Cristo ou a algo transitório que o mundo sobrevaloriza? Apegue-se à cruz e tudo o mais vai encontrar seu devido lugar dentro de seu coração.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Até os malas


“Exortamo-vos também, irmãos, a que admoesteis os insubordinados, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejais longânimos para com todos” (I Tessalonicenses 5:14). Essas palavras dirigidas por Paulo à igreja revelam uma verdade para muitos indigesta.
 Veja, Paulo está afirmando que a igreja deve ser um ambiente em que você esteja disposto a exercitar sua capacidade de admoestação, ou seja, de exortação, de direcionamento, de ensino, de correção de condutas equivocadas. Está conclamando você a exercitar na igreja suas habilidades consoladoras aos desanimados e que ampare os fracos. Ele afirma ainda que lá é o local onde devemos ser longânimos para com todos. Todos!
 A forma como esse verso aparece na Bíblia Viva é ainda mais eloquente: “Irmãos, admoestem aqueles que são preguiçosos ou rebeldes; confortem aqueles que estão atemorizados; tenham um carinhoso cuidado por aqueles que são fracos; e tenham paciência com todos”.
 A verdade indigesta escondida aqui é bastante simples: a igreja deve ser um lugar para gente preguiçosa, rebelde, amedrontada, fraca e (sim!) chata. Chata, porque com quem mais você deveria exercitar a paciência?
 Sei que você tinha vontade de promover uma limpeza emulando os esforços de eugenia nazista, tirando da sua igreja os chatos, os inconvenientes, os que falam na hora errada, os que se vestem de forma bizarra, os que vivem se lamuriando e os que não querem nada com nada, mas aí com quem você exercitaria a paciência, a consolação, a admoestação e essas coisas todas?
 O fato é que Deus quer que a igreja seja esse lugar heterogêneo, com uma multiplicidade de tipos gigantesca, em que nem todos demonstrem afinidades óbvias com você, e que, por alguma razão nem tão óbvia assim, Ele não quer você fugindo dessas pessoas, mas se relacionando com elas! Ele tem propósitos mais altos que passam pelo exercício da capacidade de aturar pessoas diferentes.
 Oswald Chambers coloca assim: “Na vida espiritual, cuidado para não andar de acordo com suas afinidades naturais. Todos têm afinidades naturais; de algumas pessoas nós gostamos, de outras não. Nunca podemos permitir que esse gostar ou desgostar governe nossa vida cristã. Se andarmos na luz como Deus na luz está, Ele nos dará comunhão com pessoas com quem não temos nenhuma afinidade natural”.
 É indigesto? Talvez sim, a princípio, como para muitos uma salada parece mais difícil de encarar do que uma pizza, mas expor-se à salada consistentemente acaba revelando alegrias insuspeitadas e com esse esforço para estar entre os chatos, preguiçosos, fracos e desanimados não há de ser diferente.